quarta-feira, 5 de março de 2014

A Visão de um Adepto: A Questão dos Níveis de Consciência

Por: Gregorio Lucio
 
“Quem tem olhos de ver, veja! Quem tem ouvidos de ouvir, ouça!” (Jesus)
 
Antes de iniciar os sermões junto ao povo que o acompanhava, Jesus pronunciava essas frases “quem tem olhos de ver, veja! quem tem ouvidos de ouvir, ouça!”
 
Naturalmente, isso não se trata de um simples recurso de retórica ou uma aplicação de oratória para chamar a atenção de seu público. Jesus, muitas vezes referia-se dessa forma por saber, mais do que ninguém, a respeito de que os seres humanos vivenciam as percepções dos seus sentidos básicos, por meio de duas dimensões diferentes: a orgânica e a psicológica.
 
Nós tomamos contato com a realidade que nos cerca e com as nossas percepções interiores por meio dos nossos sentidos orgânicos (visão, audição, tato, gustação, olfato). Desde o ato mais simples e automático de  respirar, alimentar-se ou caminhar, até as ocorrências mais diferenciadas (intuições e percepções mediúnicas), tudo isso passa pelo registro de nossos órgãos sensoriais.
 
Ver e ouvir são funções orgânicas fundamentais para podermos tomar contato com o mundo exterior. Nossa vida de relação está diretamente ligada a essas funções básicas dos nossos sentidos. É por meio do “ver” e do “ouvir” que podemos nos comunicar com o outro, trocar informações, estabelecer relações as mais diversas, constituirmos uma família, vivermos em uma sociedade. Tudo isso com a finalidade de vivenciarmos as experiências de vida que nos promovam a evolução espiritual.
 
Ou seja, nossa vida e, consequentemente, as experiências que vão promover a nossa evolução e amadurecimento como pessoas, estão diretamente conectadas com a nossa relação com o outro.Nem mesmo Deus opera na vida humana, senão por ação de outro ser humano que se faz presente em nossa vida ou em momentos dela.  Jesus se faz homem, encarnando na Terra, assim como tantos outros benfeitores que a Humanidade já conheceu (Francisco de Assis, Irmã Dulce, Madre Tereza de Calcutá, Gandhi, Chico Xavier, Nelson Mandela, e outros), justamente para nos dar essa exata noção de que Deus se apresenta na vida humana por meio da imagem e exemplos de outro ser humano, o qual possa ser o portador de Sua mensagem e auxílio.
 
Contudo, nossas questões psicológicas interferem na maneira como “vemos” e “ouvimos” as pessoas e as coisas do mundo. E essa interligação entre o ver e o ouvir e a nossa realidade psicológica nos mostra o nível de consciência no qual cada um de nós estagiamos. Transitamos todos por níveis de consciência diferentes, o que caracteriza o nível de desenvolvimento e a evolução espiritual em que cada um de nós nos encontramos.
 
Nosso nível de consciência está diretamente relacionado com as várias vivências e questões particulares que temos em nosso dia-a-dia. E, como não somos plenamente desenvolvidos em todos os aspectos de nossas vidas e de nossa individualidade, nosso nível de consciência pode se mostrar mais avançado em algum ponto, enquanto noutro ele possa se mostrar deficiente. A síntese destes diferentes aspectos do nível de consciência é que nos dá o padrão evolutivo, espiritual, no qual nos encontramos individualmente e que, por lógica, nos leva a nos relacionarmos com pessoas de nível equivalentes  e buscar frequentar lugares que se afinizem com o nosso padrão “vibratório”.
 
Quem tem olhos de ver, veja! Quem tem ouvidos de ouvir, ouça”. Essas frases pronunciados por Jesus são chamamentos de ordem psicológica que dizem respeito a esse “despertar” interior que cada um de nós deve empreender para poder saltarmos os degraus na escala da evolução espiritual. Como disse, trata-se de um despertar de ordem interna e capaz de produzir os impulsos para a modificação efetiva em nós.
 
Mas, enquanto esse despertar em nós não acontece, é compreensível a postura de negação ou de defesa que muitos assumem, demarcadas por aquelas frases sempre repetidas e já bastante conhecidas: “Eu sou o que sou! Ninguém vai me mudar!”; “sou assim mesmo, quem quiser, que goste...quem não quiser...”; “eu nasci assim, cresci assim, vou morrer assim!” (síndrome de Gabriela); “isso que você fala é muito bonito, mas é literário, não é prático, não faz parte da vida das pessoas”; “eu preciso disso pra viver!”, “é meu destino ser assim”, “eu paro (ou mudo) quando EU quiser”; etc.
 
Somando a essa postura defensiva e de negação, a pessoa também adota uma visão projetada sobre aqueles outros que, naquele aspecto, estão em um outro nível de consciência (geralmente superior), as quais esta pessoa identifica como sendo os seus “censuradores”, ou os seus “juízes”, também dentro de uma postura de transferência e de defesa por ainda não conseguir perceber a sua real condição. Geralmente vai referir-se de maneira depreciativa ao outro como “a certinha”,  “o santo”, “a moralista”, “o intelectual”, “o arrogante”, “o mestre”, etc., conquanto seja de dever e obrigação daquele que se situa num nível de consciência superior, o papel de sempre alertar, orientar e incentivar a caminhada e a “subida” de seus companheiros, sejam familiares, amigos, irmãos religiosos, etc..
 
Com a intenção de exemplificar e sem querer fazer autobiografia, gostaria de citar um breve fato que aconteceu comigo a pouco tempo atrás.
 
Não é novidade para nenhum amigo leitor de que, apesar de ser umbandista, sou um grande admirador e estudioso da Doutrina Espírita (kardecista) e, por conta disso, principalmente quando da minha vivência que começou ainda adolescente no centro espírita, participo, há mais de 10 anos, junto com minha noiva, de um Grupo de Estudos Avançados de Doutrina Espírita em uma casa espírita na zona leste de São Paulo, no qual nós enfocamos o estudo do Espiritismo em conjunto com o conhecimento da psicologia, da psicanálise, da psicologia analítica (junguiana). Nesta atividade, também realizamos o acompanhamento espiritual e psicológico de um pequeno grupo de assistidos que são pacientes de determinadas doenças de cunho psiquiátrico (depressão, esquizofrenia, transtorno bipolar, etc.). Justamente pela característica do grupo, as nossas leituras e discussões são muito focadas nas questões que envolvem a temática da saúde, tanto orgânica quanto psicológica. Nessas discussões, procuramos levantar exemplos de ordem prática e pertinente a vida comum de todo nós e, por diversas vezes, éramos (minha noiva, eu, e outros) solicitados a falar sobre o tema usando como exemplo o caso do tabagismo e da pessoa fumante, que como disse nós mesmos levantávamos ou éramos solicitados a falar por pedido de outras pessoas, pelo fato do hábito de fumar ser, junto com o hábito de se alcoolizar, uma prática e um costume muito presente em nossa sociedade e nas famílias.
 
Como nunca fiz segredo para ninguém, sou filho de um alcoólatra e fumante inveterado (e inclusive adicto de outros tipos de narcodependência), com o qual passei muitos anos de minha vida, tendo, eu mesmo, me tornado fumante, logo aos meus 10/11 anos de idade, fumando bitucas que meu pai deixava em seu cinzeiro ou pegando-as no chão dos bares a que meu pai me levava e de onde tenho quase que todas as lembranças junto dele. Naturalmente, depois de me tornar espírita e assumir a proposta de vida transmitida por essa Doutrina, aos 18 anos, pude libertar-me desse hábito e promover modificações drásticas na minha vida. Por isso, me dou licença para falar destes temas (alcoolismo e tabagismo, em especial) sem nenhum constrangimento e com plena segurança daquilo que digo e afirmo, pois minha vida é um exemplo vivo e simples destas modificações e mudanças que devemos empreender para a nossa melhora, tendo eu aprendido tudo isso com as pessoas e os grandes exemplos que encontrei na Doutrina Espírita.
 
Pois bem, nestas discussões tratávamos sobre o tabagismo e sobre todos os malefícios relacionados a essa doença, assim como falávamos do perfil psicológico ligado à pessoa fumante, etc., sendo acompanhado pelas intervenções de outros companheiros e do dirigente do grupo, os quais também colocavam o seu parecer, confirmando e ampliando as nossas explanações.
 
Certo dia, a pouco tempo atrás, uma companheira do grupo pediu a palavra e disse que gostaria de fazer uma confissão. Ela então nos contou que fora fumante por mais de 35 anos, mesmo já sendo espírita há um período equivalente a esse, mas que até então ela não tivera se empenhado em deixar este hábito maléfico.  No entanto, após passar tantos meses participando do grupo e ouvindo todas as vezes que abordávamos a questão do tabagismo, ela passou a se incomodar com aquilo e resolveu-se por abandonar o hábito. Ela ainda disse, e nos surpreendeu com essa revelação (porque nem fazíamos idéia de que ela era fumante), de que muitas noites de sábado ela tinha ido embora de lá “com muita raiva” de mim e de outros amigos do grupo, por causa das colocações que eu fazia repetidamente abordando o tema do tabagismo, passando até a semana toda “vibrando contra” a minha pessoa, porque as coisas que eu falava mexiam demais com as suas questões interiores. Hoje, faz 05 anos que essa companheira abandonou o vício do cigarro, após ter sido fumante por 35 anos, modificando seus hábitos e está muito mais feliz e realizada com essa grande conquista interior.
 
Ver-se liberto das amarras que nós mesmos criamos para nós, em nossa inconsciência, “não tem preço”, como diz aquela propaganda.
 
Então, o que temos aí?
 
A modificação no nível de consciência da pessoa. Ela pôde, na relação com o outro (na vivência com o grupo espírita), identificar as suas necessidades de melhoria e envidar os esforços e as medidas necessárias para ir além do nível em que se encontrava, naquele aspecto (saúde do corpo) e promover um salto em sua qualidade de vida.
 
Isso é evoluir espiritualmente. Uma ação concreta e direta para a melhoria interior. Não é tornar-se iluminado e perfeito, mas é dar um passo nesta direção.
 
Para dar mais um exemplo didático, vamos dividir em 3, os aspectos da vida de um ser humano, como sejam: interior (saúde do corpo, necessidades particulares, etc.), privativo (vida em família, conjugal, e o cumprimento de seu papel dentro desta) relacional (vida social, profissional, etc.). Pois bem, existem indivíduos que possuem um nível de consciência mais desenvolvido em relação ao aspecto interior (cuidar de si-mesmo), denotando hábitos saudáveis em relação a sua saúde (orgânica e emocional), contudo, possuem deficiências no seu aspecto relacional (profissional, por exemplo), tendo dificuldade de se adaptar no ambiente de emprego, de se desenvolver profissionalmente, etc. Da mesma forma, existem pessoas que possuem um nível de consciência relacional desenvolvido (são muito bem relacionados, possuem sucesso profissional, etc.) mas possuem deficiência no relacionamento com sua família, ou no relacionamento conjugal; ou, no aspecto interior, não dando a devida atenção à sua saúde, não conseguindo libertar-se dos maus hábitos, sejam físicos ou psicológicos.
 
Poderíamos incluir também o nível de consciência em relação ao aspecto intelectual “versus” o emocional, etc. Mas, pensando justamente sobre esses aspectos, podemos identificar que todos nós estagiamos em um nível de consciência (em relação a nós mesmo e ao mundo que nos cerca)  que, de maneira geral, é mais ou menos parecido, variando em graus de acordo com as afinidades e as nossas aquisições psicológicas particulares.
 
Contudo, conforme os graus de diferenciação entre os níveis de consciência de cada pessoa vão variando, isso pode ocasionar determinadas dificuldades de compreensão e na relação entre as pessoas que estejam em pontos muito distantes nesta escala. Aí devem entrar os recursos psicológicos da compaixão, da compreensão amorosa e da tolerância fraternal, para que essas barreiras e resistências possam ser contornadas e superadas.
 
Não foi à toa que Jesus escolheu 12 apóstolos. Ele poderia ter escolhido, 20, 30, 50, 100 apóstolos. Mas ele escolheu 12, porque eram as pessoas que estavam em condições de conseguirem compreender a Sua mensagem, a assimilar os ensinamentos contidos em Suas palavras e exemplos e poder divulgá-los para o restante das pessoas. Tanto é assim que nos 3 anos em que Jesus realizou a sua jornada como Messias (dos 30 aos 33 anos), ele realizou 4 sermões e, para que a Sua mensagem,  o Seu Evangelho, pudesse ser ouvido pela multidão que o cercava, os apóstolos repetiam para os demais cada frase do sermão que Ele proferia.
 
Naturalmente, nós podemos nos desenvolver e “subir” nesta escala de níveis de consciência, em todos os aspectos que eu elenquei acima. Aliás, é um dever nosso fazer isso.
 
Porque, quando falamos em evolução espiritual, estamos justamente falando de tudo aquilo que podemos e devemos fazer para melhorarmos a nossa condição de vida, seja no seu aspecto interior (nossa saúde, nossa vida emocional, espiritual, etc.), seja em seu aspecto exterior (vida social, profissional, familiar, conjugal, etc.). Nós evoluímos por meio das realizações que empreendemos em nossa vida diária, mesmo naquelas coisas mais simples e/ou “materiais”.
 
Não há outro caminho. Falar em evoluir sem pensar em modificações em nossa qualidade de vida, em mudanças de comportamento e de hábitos, é simplesmente sonhar com algo que nunca vai acontecer e ficarmos presos a ilusões que, futuramente, nos irão conduzir a frustrações e angústias maiores.
 

Fraternalmente.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

A Visão de um Adepto: A Ética do Filho-de-santo


Por: Gregorio Lucio

Este texto trata de algumas reflexões particulares que tenho feito sobre a ética que deve existir na relação mestre-discípulo, pai/mãe-de-santo e filho-de-santo, dentro da religião Umbandista.

“Difícil não é ser mestre. Difícil é ser discípulo”. Porque "mestre"muitos acham que são ou podem ser.

O Sacerdote ou a Sacerdotisa dentro da religião de Umbanda (pai ou mãe-de-santo) detém as chaves e os conhecimentos fundamentais da raiz e da tradição umbandista que cada terreiro possui.

Como pessoas mais velhas dentro da tradição religiosa, que construíram o seu caminho antes de nós, o pai e a mãe-de-santo são reconhecidos como sendo capazes e capacitados para exercer sua função de líderes espirituais de uma comunidade de terreiro. Isso porque nosso pai/mãe-de-santo foram também filhos-de-santo daqueles que os precederam e passaram por um longo período de formação e aprendizado para estarem onde estão.

Na minha visão, quando uma pessoa escolhe uma casa de umbanda para frequentar, principalmente se na condição de médium, ela deve tomar essa decisão verificando se aquele templo dispõe de princípios de trabalho que se entendam como sendo ricos e coerentes com as expectativas que esta pessoa possui em sua busca espiritual. 

Com mais destaque, quando falamos daquele que será nosso pai/mãe espiritual. Devemos reconhecer essa pessoa como sendo portadora de valores ético-morais com os quais nos identificamos e como alguém de grande experiência na vivência umbandista, sendo ela quem irá guiar o discípulo pela estrada da iniciação, em cuja imagem e exemplo devemos nos inspirar.

Não quero dizer que tenhamos que cultuar, idolatrar e, muito menos, bajular a pessoa de nossa mãe/pai de santo. Tão pouco devemos procurar nela a imagem de um santo ou anjo perfeito e infalível, que está a nossa disposição para resolver todo e qualquer problema de nossas vidas, coisa que está muito distante da realidade de qualquer ser humano. Contudo, nosso mestre deve ser tido como alguém merecedor de grande estima e respeito de nossa parte.

Uma vez que escolhi aquela determinada pessoa para ser minha mãe-de-santo ou pai-de-santo, a ponto de dar a ela a minha coroa, a minha cabeça para ser “feita” e, consequentemente, comprometi-me com ela e com a minha comunidade de santo em ligações espirituais de profundidade, é porque reconheço-a como sendo plenamente capacitada para me guiar e orientar em minha vivência religiosa/espiritual dentro das Leis de Umbanda.

O filho-de-santo deve compreender que desrespeitar o seu Mestre Espiritual é desrespeitar o terreiro que frequenta, os Guias e Mentores da Casa e os irmãos-de-santo que lhe compartilham da vivência religiosa. Fazer piadas e debochar do Mestre demonstra uma personalidade infantil e ególatra, que se pretende ser auto-suficiente e substituir a figura do pai/mãe-de-santo pela sua própria. Mostrar despeito e desconsideração para com os ensinamentos e/ou advertências do líder religioso é achar-se melhor capacitado e mais experiente do que seu próprio mestre.

Na condição de filho-de-santo, gostaria também de colocar que essas situações são muito do gosto daqueles seres espirituais que habitam as trevas do mundo espiritual, os quais se valem destas aberturas que damos em nossos pensamentos mal conduzidos para insuflar essas atitudes infelizes, minando nossas resistências morais, provocando a dúvida e o desrespeito para com a Mãe ou o Pai-de-Santo, numa tentativa de desvirtuar e fazer falir as atividades benéficas e de auxílio que o templo religioso desenvolve.

Portanto, minha postura deve ser pautada em uma ética de respeito ao meu sacerdote/sacerdotisa. Suas palavras e ensinamentos devem ser sempre ouvidos em silêncio, mesmo que no momento não compreendidos, para serem posteriormente meditados pelo filho-de-santo para entender o sentido de suas lições. Caso determinadas colocações ou atitudes do babalorixá/yalorixá tenham causado dúvidas, discordâncias ou qualquer sentido de contrariedade para o filho-de-santo, este deve pedir uma conversa particular e direta com seu pai/mãe espiritual. Jamais colocar sua contrariedade como objeto de discussão pública dentro do terreiro. Porque muitas vezes, as razões que levaram o líder religioso a tomar determinadas posturas e medidas estão de acordo com a visão que este possui na sua condição de líder e de pessoa mais experiente, e que ainda escapa ao filho-de-santo uma compreensão integral a respeito, justamente por sua inexperiência. Sendo assim, na ética imposta ao filho-de-santo, jamais este deve fazer da figura, das atitudes e das palavras de seu pai/mãe-de-santo um motivo de piadas, de deboches e de despeito, denotando completo desrespeito para com seu líder religioso, assim como para com a comunidade que o rodeia.

Agora, cumprir obrigação para com a comunidade de santo não significa, somente, estar presente nas giras e nas datas festivas, uma vez que isso é algo que o filho-de-santo irá fazer dentro da sua disponibilidade de tempo dada pelo seu momento de vida e das atribuições de responsabilidades a que esteja vinculado ou de acordo com a regra de cada casa. Cumprir obrigações para com a comunidade de santo é ter uma postura respeitosa para com as regras disciplinares do templo, desde o vestuário recomendado até o comportamento ético que se exige do filho-de-santo dentro e fora do templo, para que sua casa, sua religião, os Guias Espirituais, e seu babalorixá/ialorixá sejam honrados pela sua conduta e seus exemplos.

O filho-de-santo deve procurar ter uma visão “horizontal” do seu templo religioso. Olhar ao redor e perceber que para além da sua contribuição pecuniária mensal, indispensável para o custeio mínimo das despesas do templo religioso, existem atividades necessárias para o bom andamento da casa e que demandam trabalhadores voluntários para a sua realização, podendo o filho-de-santo integrar-se as equipes de limpeza e organização da casa. Pois, quanto mais pessoas interessadas e dispostas a ajudar, menos sobra para um pequeno grupo de irmãos-de-terreiro que acabam ficando sobrecarregados, apesar de sua boa-vontade em ajudar sem enfado, nem reclamação.

Falando de irmãos-de-santo, a postura ética com respeito aos irmãos de terreiro. Irmão de santo ou de terreiro é, primeiro e antes de tudo, nosso parceiro de vivência espiritual e religiosa. Não deve ser visto como colega de bar. Naturalmente, o terreiro não deixa de ser um local próprio para uma experiência de cunho social e é completamente aceitável e saudável que as pessoas criem laços de amizade e de afeição umas pelas outras. Entretanto, isso não deve servir para que os irmãos-de-santo se vejam, dentro do ambiente do terreiro, como estando em um churrasco em casa familiar, na qual se vai falando todo o tipo de assunto, piadas, provocações, brincadeiras, etc. 

As conversações devem ser colocadas em um nível coerente ao lugar onde estão. E o terreiro é um templo religioso para onde vão pessoas buscando encontrar sentidos maiores para a sua vida, capazes de fazê-las suportar as provações pelas quais estão passando.

Da mesma maneira, olhar ao redor e perceber o público que busca a sua casa. Pessoas com problemas de saúde, com dificuldades no lar, desempregadas, vivendo dramas os mais variados e inimagináveis. Elas merecem um ambiente sereno e silencioso, onde podem orar e encontrar paz interior, contando com pessoas (filhos-de-santo) educadas, respeitosas e atenciosas? Ou merecem ver pessoas como se estivessem num clube social, em conversações despreocupadas, barulhentas, sobre coisas que nada tem a ver com o ambiente religioso onde estão?

Quem constrói um ambiente de paz ou de balburdia são os próprios filhos-de-santo da casa, uma vez que são os seus trabalhadores.

Assim, provocar situações que demonstrem desrespeito para com a pessoa do Líder Espiritual, seja fazendo piadas, debochando de suas advertências e lições, com pouco caso e despeito, desconsiderar o ambiente ao seu redor e entregar-se a condutas e conversas relaxadas em igual desrespeito para com os irmãos-de-terreiro e, principalmente, para com aqueles que buscam a sua casa de Umbanda em busca de amparo e consolo, é lançar sobre si mesmo o peso das Leis de Umbanda e, por mais que tais atitudes infelizes possam passar despercebidas ou mesmo serem fechadas ao conhecimento de seu Mestre Espiritual, jamais elas estarão desconhecidas dos Guias e Mentores do Templo, os quais tudo vêem e tudo sabem a respeito de cada um dos filhos-de-santo ligados à sua tradição.

Concluindo, quero enfatizar que é imprescindível uma postura ética e de estima para com a Mãe e o Pai-de-santo do terreiro. São eles os sustentáculos humanos dentro de cada tradição umbandista, são eles que detém as chaves da iniciação e a experiência construída antes de nós, capazes de nos ligar ao Sagrado e nos orientar na jornada espiritual dentro das Leis de Umbanda que escolhemos seguir, por vontade própria, os quais devemos honrar a todo momento, com nossa atitude de respeito, carinho e, acima de tudo, com nossos exemplos de retidão de conduta e melhoria como seres humanos dentro e fora do terreiro.

Fraternalmente.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Mediunidade na Umbanda e no Kardecismo: Características no Trabalho Mediúnico

Por: Gregorio Lucio

O texto de hoje endereça um tema muito questionado, principalmente por pessoas que passaram pelo Kardecismo e foram para a Umbanda, e vice-versa.

Não gosto muito de escrever a respeito do tema, porque, em geral, essa temática está muito ligada a visões particularistas (e até sectaristas) por parte de alguns adeptos de ambos os movimentos religiosos em questão, sempre implicando em discussões infrutíferas e intermináveis a respeito.

No entanto, após conversar com alguns amigos mais próximos, pertencentes a seara espírita e atendendo à sua solicitação, até para poder contribuir com material para o estudo em seus grupos de estudo mediúnico e nas Escolas de Médiuns de suas casas,  gostaria de compartilhar com todos alguns apontamentos básicos, não pretendo nem quero me aprofundar no tema, embora haja muita coisa interessante para se pensar e pôr em questão,  os quais julgo serem de relevância para a estruturação de um saber que possa ser de interesse para todos os amigos que se dão ao trabalho de ler essas humildes e despretensiosas linhas.

Para isso, me utilizarei nessa análise, além de estudos e reflexões feitos por mim, da minha humilde e apagada vivência como médium, tanto no Kardecismo quanto na Umbanda. Então, espero ser compreendido pelos meus amigos das “duas correntes”, nesta jornada espiritual.

Pois bem, Umbanda e Kardecismo: Características no Trabalho Mediúnico.

Primeiramente, sempre é relevante lembrar uma questão básica sobre a mediunidade. Mediunidade não é dom. Mediunidade é uma condição humana conquistada pela evolução dos espíritos ao longo das eras, do avanço da consciência e da mente espiritual desde os reinos inferiores ao humano, a qual foi se desenvolvendo na experiência contínua que nós realizamos, como Espíritos, entre o mundo espiritual e o mundo corpóreo, por meio do processo da reencarnação. De origem espiritual, portanto, a mediunidade, no ser humano encarnado, caracteriza-se por uma faculdade mental, a qual já carregamos, desde que nascemos, como um potencial a ser desenvolvido, educado, e que se expressa por meio dos recursos psíquicos e orgânicos de que todos os seres humanos são portadores.

Se entendermos a mediunidade como uma condição natural, fruto do desenvolvimento humano, veremos que uma mesma pessoa, portadora de mediunidade, pode experimentar e expressar sua sensibilidade espiritual tanto na seara umbandista, quanto na seara kardecista. Isso sem falar que a pessoa pode expressar essa sensibilidade espiritual em outras religiões também. Mas, falando dessa possibilidade, especificamente dentro destas duas religiões em questão, podemos observar uma prova disso no constante “trânsito” – que aliás é até histórico – existente entre pessoas que iniciam sua trajetória no Kardecismo e transferem-se para a Umbanda, assim como a recíproca também é verdadeira.

Embora em momentos diferentes da sua trajetória dentro da religião de Umbanda ou da Doutrina Espírita,  é possível, sim, a pessoa “trabalhar” tanto numa quanto noutra. Há ainda aqueles, embora mais raros, que lidam naturalmente com a prática mediúnica exercida, ao mesmo tempo, na Umbanda e no Kardecismo.

Portanto,  no meu ponto de vista, e diante do que já explanei a respeito da mediunidade, não há uma diferença humana entre o médium de umbanda e o kardecista. Não há uma “mediunidade de umbanda” e uma “mediunidade kardecista”, que cada pessoa traga desde nascença. Médium é médium, em qualquer condição ou lugar. Pensando do ponto de vista humano, o que vai fazer uma pessoa ser “médium de umbanda” ou “médium espírita” são suas afinidades psicológicas, sua história pessoal, o contexto cultural e familiar no qual está inserido e, até mesmo, as tendências inconscientes que este pode trazer de seu passado espiritual (vivências em outras encarnações). Dentro da sua busca espiritual nesta encarnação, o indivíduo irá simpatizar e vincular-se com aquela que mais diga respeito ao seu mundo interior, o que poderá variar de acordo com os momentos e fases da sua vida, o que é natural.

De igual forma, a questão do mundo espiritual envolvido nas práticas de Umbanda ou Espiritistas. Não há dissenções entre os “Espíritos de Umbanda” e os “Espíritos Kardecistas”. Entre os Numes Espirituais, há a superação dos rótulos e estigmas que existem no mundo dos homens, pois eles encontram identificações que  se pautam na conduta moral e no desejo do Bem e da Fraternidade Universal.  Os benfeitores e mentores de luz auxiliam toda a humanidade, independente de qualquer cultura religiosa, do sistema político, social, econômico. Das tribos milenares nativas da Namíbia, até as grandes sociedades tecnológicas do chamado “primeiro mundo”, em todo o lugar, os Espíritos Iluminados se encontram, ajudando e inspirando a todos na direção do aprimoramento espiritual.

Contudo, conforme já disse em textos anteriores, nem sempre isso quer dizer que os mesmos espíritos que amparam e tutelam um terreiro de Umbanda necessariamente também dirigem um Centro Espírita. Quando dizemos que não há diferença entre os Benfeitores, devemos  com isso entender que eles são iguais e que desenvolvem seus trabalhos seguindo um mesmo princípio. Um Mentor que se manifesta numa sessão espírita não é “superior” a um Guia de Umbanda que vem trabalhar numa gira. Mas, no mundo espiritual, os Espíritos se agrupam por afinidades variadas, inclusive culturais. Podemos observar isso quando observamos a descrição do Espírito Clara Nunes (a cantora), na psicografia transmitida por intermédio de Chico Xavier, quando ela narra a sua passagem para o mundo espiritual e é conduzida a uma região em que estariam muitas pessoas afins à cultura umbandista. De igual maneira, na obra “Quando se pretende falar de vida”,  também psicografada por Chico Xavier, o Espírito do jovem Roberto Muzkat, descendente de família judaica tradicional, descreve seu despertar no mundo dos espíritos e relata a sua “estadia” junto de seu avô e outros familiares, também desencarnados, numa região espiritual onde se congrega uma comunidade imensa de judeus.

Ué...sendo assim...então é tudo igual?! O Trabalho Mediúnico na Umbanda e no Kardecismo são idênticos?!

Não. Não é isso.

No meu ponto de vista penso que devemos entender que as diferenças entre o Trabalho Mediúnico na Umbanda e no Kardecismo se dão na forma e no método de que cada uma se vale para a prática do intercâmbio espiritual.

Focarei meu olhar para falar do fenômeno de Incorporação que se realiza no mediunismo de Umbanda e na Psicofonia (também chamada de Incorporação) no trabalho espírita.

A partir daqui, tentarei desdobrar um pouco, brevemente, e pontuar onde estão algumas destas diferenças.

Primeiro, precisamos considerar dois elementos importantíssimos para entendermos o mecanismo mediúnico que ocorre na ligação do médium com o Espírito que vai se manifestar. Refiro-me ao Corpo Espiritual e aos Chakras (centros de força).

O corpo espiritual, conforme também já tratei em outros textos, é o intermediário entre o Espírito e o Corpo físico. É ele o responsável por receber as impressões que geramos, como Espíritos, e “comunicá-las” ao corpo físico. No sentido inverso, também. As sensações e percepções experimentadas pelo corpo físico, são gravadas no Corpo Espiritual e “repassadas” ao Espírito. Tudo isso, estou colocando de maneira bem simples, sem me aprofundar muito nos mecanismos mais complexos que envolvem essas interligações.

No Corpo Espiritual temos Centros de Luz, também chamados Centros de Força ou Chakras, os quais são pontos luminosos que possuem um formato circular que vibram e que irradiam intensa luminosidade. Esses Centros luminosos, são responsáveis por estabeleceram conexões com áreas correspondentes em nosso corpo físico. Seria da energia irradiada destes centros de luz que nosso corpo retira a sua vitalidade, a sua saúde, a sua manifestação. Segundo as tradições milenares que os estudaram e identificaram (como o Hinduísmo),  possuímos 7 centros principais, que se ligam desde o alto da cabeça (o coronário), na nossa “coroa”, até a base da coluna ( o chacra básico), passando pela região entre os olhos (chakra frontal), da garganta (chakra laríngeo), do coração (chakra cardíaco), do baço (esplênico), do umbigo (umbilical) e genital (chakra genésico).

Falando em termos básicos, a ligação entre o médium e o Espírito ocorre, primordialmente, por intermédio do Corpo Espiritual (também chamado de Períspirito, na linguagem kardeciana). Há um “encaixe” de vibrações que ocorrem entre o corpo espiritual do médium e o Espírito que irá se manifestar. Quando o médium está concentrado, em oração, ele expande o potencial de vibração do seu corpo espiritual, e dessa forma, é possível que o Espírito que vai se manifestar possa sintonizar-se, num mesmo padrão de frequência e vibração, e “imantar-se” a ele. Essa ligação entre o médium e o Espírito ocorrerá pela sintonização e manipulação do Espírito aos Chakras (os centros de força) que estão localizados no Corpo Espiritual do Médium, conforme já disse. Essa ligação irá  produzir o “estado de transe” no médium e, consequentemente, a incorporação.  E isso é tanto para o médium de Umbanda, quanto para o médium Espírita.

Dito isso, passemos ao Método e a Forma pela qual se processam os Trabalhos Mediúnicos.

No Kardecismo, de maneira geral, as sessões mediúnicas em que há o fenômeno da Psicofonia (incorporação) ocorrem em pequenos grupos, as quais se dão em locais específicos e fechados ao público, chamados de câmaras mediúnicas.

O grupo de trabalho fica disposto em círculo ou em torno de uma mesa e, aí vem uma questão chave dentro das diferenças do mecanismo mediúnico: o médium desenvolve seu trabalho sentado.

E o que tem a ver isso?

Tem a ver que no momento em que o médium está sentado, ele diminui drasticamente a possibilidade da ligação espiritual com os chakras “inferiores”: esplênico, umbilical e genésico.

Dentro do contexto em que ocorrem as práticas mediúnicas do Kardecismo, há uma total intenção, do grupo como um todo, manifestada neste método de trabalho, de que as comunicações ocorram exclusivamente utilizando-se dos chakras “superiores” (o termo superior aqui, não significa “melhor”, mas se refere a localização do chakra em relação ao corpo físico). Ou seja, a ligação do Espírito ficará restrita aos centros Coronário (alto da cabeça), Frontal (entre os olhos), Laríngeo (garganta) e Cardíaco (coração). Isso direciona a comunicação e o contato espiritual para um nível quase que totalmente mental, em que há predominantemente, a troca mais ou menos sutil, de pensamentos entre o médium e o Espírito. Não se abre a possibilidade para que o espírito influencie no comando do corpo do médium.

Para entender o porquê disso é necessário esclarecer, ou lembrar, que o objetivo das reuniões kardecistas que se utilizam da incorporação é, principalmente, o de servir para a comunicação de espíritos sofredores, obsessores, ou que tenham qualquer tipo de necessidade de esclarecimento e orientação. Assim, o Mentor do médium influencia seu chakra coronário, abrindo seu campo mediúnico, primeiramente. Após isso, é acoplado o Espírito comunicante (não podemos nos esquecer de que no caso de espíritos sofredores, o processo mediúnico fica a cargo do comando dos Mentores do Trabalho). Ao estabelecer uma conexão com o chakra frontal, por exemplo, o Espírito irá comunicar mentalmente os seus pensamentos ao médium. Ao ligar-se ao chakra laríngeo, haverá a possibilidade do médium manifestar falando (por isso o termo psicofonia) os pensamentos daquele Espírito. E, ao ligar-se ao chakra cardíaco o médium poderá registrar os sentimentos daquele Espírito. O fenômeno mediúnico pode avançar para os chakras “inferiores”, a depender do tipo de comunicação. Por exemplo, num trabalho de desobsessão, um espírito manifestando intensa raiva e agressividade, atinge a ligação com o centro umbilical do médium. No entanto, como ele está numa postura corporal que “inibe” a total manipulação deste centro de força, o potencial de ação da entidade espiritual fica bastante reduzido e, por conta disso, é possível ao Esclarecedor ou ao Dirigente do trabalho dialogar com o Espírito manifestante e intervir, caso seja necessário, desligando-o do médium, para que não haja a junção dos conteúdos e da irradiação nociva da entidade com as expressões psicológicas e orgânicas do próprio médium, o que poderia gerar um descontrole na comunicação mediúnica. Ou seja, a postura corporal do médium, neste método de trabalho, implica numa medida também de segurança e proteção ao medianeiro e ao grupo como um todo.

na Umbanda, há um outro mecanismo mediúnico. Por que o médium na Umbanda trabalha de pé. E isso implica que, ao assumir essa postura corporal, o médium oferece todos os seus Centros de Força para a ligação com os Espíritos que irão se manifestar. Entretanto, a natureza dos Espíritos que irão atuar neste mecanismo é diversa daqueles relatados na prática kardecista. Por ocasião da evocação dos Guias e Protetores pertencentes as Correntes Espirituais de Umbanda, ocorrerá a ligação desta categoria de entidades, as quais operarão, por intermédio do corpo do médium, o seu trabalho espiritual, num nível mais coletivo do que individual. A intenção dos trabalhos de assistência espiritual na Umbanda é o de amparar espiritualmente os necessitados de “ambos os lados” da vida, servindo-se de um amplo potencial energético produzido nos ritos, pela conjunção das irradiações mentais da corrente mediúnica e da corrente astral, intensificadas pela utilização de recursos ritualísticos (pontos, firmezas, velas, fitas, guias, ervas, flores, etc.) e naturais pertencentes ao templo. 

O Guia espiritual se liga aos centros de força do médium e manipula estes centros, de maneira que ele consiga projetar a irradiação do médium, amplificada pela do próprio Guia, sobre o campo espiritual das pessoas necessitadas (desencarnadas ou encarnadas) que estejam sob a ação dessa irradiação coletiva que está sendo produzida no ambiente , estejam elas no ambiente físico ou não, permitindo que seja feita uma “leitura” e uma “intervenção” nas condições físicas, emocionais e espirituais de cada necessitado. Essa mecânica desprende uma grande quantidade de energia vital do médium, pois o transforma num agente de intensa propagação de fluidos espirituais e num grande atrator de cargas e entidades negativas que estejam sob seu campo de influência mental. No entanto, esse processo ocorre, justamente por que está sendo conduzido por uma Entidade capacitada para isso,  sem que haja a desestabilização do médium.

De igual maneira, quando há o atendimento individual de um assistido que necessite de um trabalho específico, ao aproximar-se o médium do consulente, há a interligação dos centros de força do médium aos centros de força do assistido, facultando que as entidades espirituais possam ler o campo espiritual daquela pessoa e projetar, usando a energia vital do médium, os fluidos espirituais que irão influenciar os centros de força do beneficiário, contribuindo para que possa se fortalecer e se harmonizar. Ao mesmo tempo, o médium assimila para si os excessos e os miasmas (aglomerados de energias densas) que estavam no campo espiritual do assistido, os quais serão, em seguida, desintegrados ao contato com a irradiação de seus guias espirituais e dos paramentos ritualísticos de que se utiliza (guia, fitas, pontos, velas, etc.).

Outra questão importante, o Animismo. O Animismo é o nome que damos para o fenômeno em que ocorre a manifestação das expressões que são do próprio médium, se sobrepondo às expressões do Espírito manifestante. A expressão anímica é tida como um fenômeno espontâneo e não-intencional do médium (caso contrário, seria uma mistificação) a qual pode interferir e até prejudicar a manifestação espiritual.

Por conta disso, na prática Kardecista as expressões do médium devem ser bastante estudadas e educadas para que não se sobressaiam no momento da comunicação, impossibilitando que haja uma identificação do Espírito que se manifesta, prejudicando a qualidade no atendimento espiritual e a qualidade do trabalho como um todo. Na Umbanda, também há essa preocupação para que as expressões e os impulsos do próprio médium não interfiram no trabalho espiritual.

No entanto, a expressão anímica na Umbanda é de primordial importância para que haja a elaboração psicológica, por parte do médium,  da manifestação das entidades espirituais que trabalharão por seu intermédio. A dança (quem dança é o médium, não é o Espírito), a gestualidade, as expressões corporais como um todo, são símbolos vivos e dinâmicos que comunicam a “presença” das entidades no médium. É necessária essa construção do imaginário das entidades, que se opera dentro da vivência ritualística, porque os Espíritos trabalhadores na Umbanda não se presentificam com as suas identidades individuais, conforme ocorre nas sessões espíritas. Os Guias e Protetores da Umbanda revestem-se de “roupagens”, de formas de apresentação construídas por eles, as quais comunicam mensagens espirituais significativas e para que sua identidade particular seja anulada. O conceito de Linhas, Falanges e Correntes Espirituais na Umbanda, traz essa noção de seres que anulam suas particularidades para se unirem a um processo maior e mais amplo do que suas individualidades. Eles elaboram, junto com os seus médiuns, uma “Mística”, portadora de intensa carga psíquica, a qual colabora para que, no momento da expressão anímica do médium, ocorra essa total integração do Espírito aos centros de força do médium. E por isso, é fundamental que haja uma grande porção da expressão anímica do médium, entretanto canalizada inteligentemente, no mediunismo.

Mais uma, a questão do Passe.

No passe espírita, o médium passista tem uma orientação para se colocar de maneira a doar seu fluido vital, de maneira padronizada e sem a incorporação mediúnica, estabelecendo um contato intuitivo (ou seja, servindo-se da ligação sutil no chakra frontal) com os Mentores que assitem-no no momento do passe. Não há a penetração do médium passista no campo espiritual  do assistido. Na linha de passe umbandista, há a conexão direta entre o médium passista (que atua incorporado) e o campo espiritual do assistido. De tal sorte que é possível ao médium receber as impressões do estado físico, identificando áreas do corpo específicas que precisem receber uma irradiação mais direcionada, o estado emocional e a condição espiritual em que se encontre o assistido. Há uma troca muito intensa do que vai da projeção mental do médium incorporado com o que vem do campo espiritual do assistido. Talvez seja isso que fizesse com que se criasse a impressão de que passe na Umbanda é “mais forte” do que o passe Espírita, o que não traduz uma realidade a respeito.

Para finalizar, a Importância na firmeza espiritual do trabalho.

Estar concentrado e totalmente focado no ambiente dos trabalhos em que se desenvolvem as atividades espirituais é de fundamental importância para toda e qualquer pessoa que faça parte de um grupo mediúnico. Seja na Umbanda, seja no Kardecismo.

A postura mental positiva, moralizada, serena e disciplinada, é imprescindível para seja possível esse contato eficiente e profundo com os Guias Espirituais.

Por isso, a sempre requisitada educação e disciplina para os médiuns.

Evitar bocejar demasiadamente. Não emitir sons guturais ou de qualquer outra espécie que perturbem e interfiram na concentração dos que compartilham do ambiente de trabalhos.

Cuidar da aparência, vestir-se com dignidade e de maneira coerente com as regras da sua Casa.

Cuidar da higiene do corpo físico e da saúde emocional.

Vigiar os seus pensamentos, saber identificá-los e corrigi-los, deixando de lado aqueles que surjam espontaneamente e que sejam perturbadores, imorais, ou de qualquer outra natureza que estejam inadequados ao momento do trabalho (sem ficar brigando consigo mesmo, somente não se fixando a eles). Para isso, basta recorrer ao recurso da prece e da mentalização tranquila da imagem de Jesus.

Cuidar das suas palavras e das suas expressões, nunca relaxando na sua postura e no seu comportamento, pois deve-se recordar de que está na Casa de Deus (o centro espírita ou o terreiro), num templo Sagrado, e não numa roda de bar.

Lembrar-se sempre dos necessitados, doentes e aflitos que buscam consolo na casa em que pertence e não merecem ouvir e ver nossas manifestações desrespeitosas e vulgares.

Manter o silêncio no momento de uma prece.

Chegar cedo aos trabalhos. Porque o estado de agitação, devido ao atraso, interfere na produção espiritual.

O estado interior de serenidade e de concentração, fundamentais para a firmeza de qualquer médium, não se improvisa em 5 minutos.

Que Jesus esteja com todos os amigos.

Fraternalmente.

domingo, 5 de janeiro de 2014

A Visão de um Adepto: O Templo Religioso como Ambiente Educativo

Por: Gregorio Lucio 

Toda instituição edificada sobre princípios éticos e morais, promovendo a transformação para melhor daqueles que formam a sua comunidade, torna-se, obrigatoriamente, em um Ambiente Educativo, Cultural e Filantrópico, no qual se é dada uma nova proposta e significação para a existência humana. 

Sendo assim, o conjunto de experiências e atividades que constituem o ensino religioso promovido dentro do Templo, formam o manancial de sentidos que cada frequentador deve encontrar para a sua própria jornada, nos diferentes momentos de sua existência. 

O templo religioso é uma verdadeira “escola de almas”

Ou seja, ele deve contribuir para a construção de novos hábitos, para a modificação de comportamentos arraigados, aprimorando o caráter de seu frequentador, fomentando a troca do “homem velho para o homem novo”uma vez que é imprescindível a reforma interior no adepto para que este esteja integrado a um novo olhar e atitude perante a vida, os quais lhe serão possibilitados pela vivência religiosa. Assim, o templo precisa estar inserido de maneira atuante na dinâmica da vida de relação das pessoas de sua comunidade, produzindo uma vivência religiosa possível de ser integrada na realidade de mundo que circunda o seu frequentador. 

Quando o templo religioso não provoca essas modificações ou falha nesse quesito, não realizando um acompanhamento junto a seus frequentadores e, principalmente, junto aos seus trabalhadores, permitindo que essa atitude de pequenas ações pela melhora seja postergada indefinidamente, o efeito disso é a identificação igrejista da instituição religiosa de Umbanda. 

E o que isso quer dizer? Quer dizer que o frequentador passa a ver o templo somente como um ponto de expressão de seu sentimento religioso. Um lugar para onde vai, junto com outras pessoas, viver experiências que ele não percebe como tendo profunda participação no restante de sua vida diária. Muitas vezes até, essa vivência no templo pode tornar-se composta de intenções particularistas e momentos absolutamente egoístas, pois não há vínculos com sentidos mais amplos naquela experiência. 

Penso que os templos religiosos, mais especialmente aqueles pertencentes ao movimento umbandista, devem se preocupar em oferecer uma possibilidade de vivência interligada à vida cotidiana de seus adeptos. Porque me parece frustrante e descompensador frequentar-se uma “gira” e participar-se de um trabalho espiritual, os quais se repetem dia após dia, conforme ocorre dentro destes templos, e verificar que tais práticas possuem frágeis conexões com aquilo que vivo e experiencio fora do ambiente religioso. Vê-se, atualmente, no dia-a-dia de  muitos templos umbandistas, práticas e discursos que encontram-se repletas de crenças mágicas e imaturas atribuições de expectativas sobre os Guias Espirituais, os Orixás, Deus... demonstrando pobres e incompletas relações com a realidade psicológica do ser humano. Quando muito, o que se vê em muitas casas são pálidas tentativas de se relacionar a vida com alguns poucos minutos de ensinamentos evangélicos ou ético-morais, de maneira geral, mas que não deixam de ser lições um tanto superficiais e até desconexas do cotidiano. 

O papel da Instituição Religiosa é, mais do que servir como um lócus cultural para a expressão do religioso, fornecer um conjunto de princípios norteadores para a vida. E essa função inerente ao templo religioso só pode ocorrer por meio da Educação. 

Curiosamente, quando falamos de Educação, observamos um preconceito latente no imaginário das pessoas. O de que a Educação é algo que só se aplica às atividades da infância e da juventude. Como se os ambientes e as atividades que são frequentados, predominantemente, por adultos não necessitassem da aplicação de princípios e métodos educativos.

A palavra Educação (conforme já tratamos em outro texto) deriva de dois termos do latim “Educare” e “Educere”. Educare significa orientar, nutrir, decidir externamente, direcionando o indivíduo a se transferir, de um determinado ponto em que se encontra até outro ponto onde se deseja chegar. Educere, por sua vez, implica num movimento interior, fazendo surgir do intimo do indivíduo as potencialidades que estão dentro de si e que até então permaneciam desconhecidas.

Naturalmente, existem variações no método educacional de cada templo religioso, contudo, aqueles trabalhadores que constituem a direção da instituição e aqueloutros, incumbidos do ensino, da orientação aos neófitos e da organização das práticas da casa, devem ter esse olhar cuidadoso para observarem as expressões dos seus frequentadores e companheiros de atividades, nunca fatigando-se ao trabalho de corrigir e orientar qualquer manifestação de comportamento menos feliz ou inadequada, sempre com tranquilidade, brandura e educação, embora com austeridade.

Os trabalhadores devem adquirir consciência de seu papel dentro do ambiente religioso, de acordo com suas atribuições e, aqueles que compõem o corpo da direção e da organização da casa, devem também assumir a postura e a condição premente de educadores. Pois, a função do educador é despertar o impulso de auto-educação do educando. O processo de educação é sempre um processo de auto-educação. E, acima de tudo, que a atitude do ensino venha sempre acompanhada do exemplo. Não existe processo de ensino-aprendizagem sem a justa exemplificação prática.

Porque se meu companheiro pronuncia uma palavra infeliz ou faz uma piada inadequada e eu dou risada junto com ele, ou frequento locais onde ele me vê compartilhando de seus mesmos hábitos, como vou poder corrigí-lo dentro do templo religioso? Aí é que surgem os recursos falidos da educação, como seja o grito, o gesto agressivo, a palavra que fere e que, muitas vezes, atinge também aqueles que nada tem a ver com o comportamento alheio.

Como diria o Espírito Bezerra de Menezes: “Ensinar, mas fazer; crer, mas estudar; aconselhar, mas exemplificar; reunir, mas alimentar”.

O adepto deve, então, encontrar no templo religioso um ambiente consolidado em princípios educativos, no qual lhe seja possibilitado avançar de um ponto a outro em suas questões existenciais e produzir modificações interiores, sinalizadas por momentos simbólicos. A passagem de um grau de iniciação a outro, por exemplo. A amplitude de sua participação em atividades específicas da casa. Por exemplo, existem Centros Espíritas e Templos de Umbanda, nos quais não é permitida a participação do trabalhador que traz determinados hábitos (se fumante, se se alcooliza, se alimenta-se mal) em trabalhos de saúde e cura. A depender do comportamento manifesto do adepto (aqui, dizendo mais especificamente em relação aos trabalhadores da casa) e de como esse empreende a sua modificação (ou não), o seu nível de acesso as atividades e atribuições dentro templo, ficam mais ou menos restritos. 

Sendo assim, a Educação no ambiente religioso é a aplicação de um processo sistêmico de inserção e desenvolvimento de uma série de habilidades e valores no campo psicológico de seus frequentadores, facultando mudanças positivas, tanto intelectuais, quanto emocionais e sociais. 

Se um novo filho do terreiro chega à casa e identifica que o padrão de comportamento dominante das pessoas é o de se portar de maneira cordata, moderada, respeitosa, denotando hábitos saudáveis, naturalmente, este se sentirá impelido a proceder da mesma forma, mesmo que lhe faltem, naquele momento, conquistas mais profundas neste sentido. Seus hábitos ainda estão arraigados. Suas expressões grosseiras e impulsivas ainda estão consigo. Seus vícios ainda o inquietam. Mas, o ambiente não lhe permite expressá-los, contribuindo para que se veja induzido a ajustar-se a este novo meio, possivelmente, lapidando essas arestas e, gradualmente, abrindo-lhe espaço para novos hábitos, pensamentos e comportamentos.

De outra maneira, caso seu atual nível de consciência ainda não o permita reconhecer o ambiente e comportar-se adequadamente, naturalmente o ambiente e a postura de seus irmãos de terreiro o neutralizarão em suas expressões, porque não encontrará identificação com a qual possa se alimentar, reforçando-se. Ou, caso não se sinta confortável e suficientemente resoluto em abraçar essa nova proposta, naturalmente, este indivíduo retrocederá, permanecendo como frequentador do templo, mas não vinculando-se a responsabilidades maiores, o que é compreensível.

Agora, se este filho de fé chega com a sua canga de hábitos, vícios, má formação em sua educação do lar, etc., e encontra um ambiente onde impera a indiferença e/ou a omissão daqueles que deveriam servir-lhe como educadores (ou mesmo quando há a boa intenção de orientar, mas sem a devida qualificação e métodos para isso), onde ele possa livremente se expressar e, ainda, contando com companheiros que reforcem esses seus desajustes, consequentemente, fica muito difícil (embora nunca impossível) que ela vá se melhorar, de maneira significativa, a curto e, muito menos, a longo prazo. 

Existe um pensamento de Allan Kardec, que este utilizou para definir o “autêntico espírita” e que eu julgo oportuno apresentar: 

“Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar as suas más inclinações” (Allan Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo – cap. XVII) 

Gostaria de pedir licença ao nobre educador lionês (sim, Allan Kardec era professor e pedagogo) para ampliar essa frase e colocá-la ao alcance de todo e qualquer religioso sincero e verdadeiro, incluindo aí a nós, como umbandistas: 

“Reconhece-se o verdadeiro religioso pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar as suas más inclinações”. 

Isso porque esse deve ser o resultado positivo a ser alcançado por todo aquele que pratica uma religião, seja ela qual for. 

Particularmente, não me é concebível uma pessoa passar décadas num dado ambiente religioso e não se modificar de maneira profunda, permanecendo com os seus maus hábitos mais pueris e exteriores. Sempre que isso acontece, automaticamente evidencia-se um fracasso no processo educativo, mesmo considerando-se a possibilidade do livre-arbítrio de cada um. 

Cito Jesus, como o Educador Sublime, o qual nos mostra as mais sólidas regras de Educação. 

Vemos, em diversas passagens dos Evangelhos (Mateus, 12:32, 16:23, 23:27, 52:53; Lucas 3:7, 22:31-32, 17:3, 12:27-28; Marcos 9:19, 14:32-41 e outros) a disciplina e a austeridade de Jesus no trato para com seus discípulos e inquisidores. Isso nos serve como contraposição a visão romântica de que o ser “Iluminado”, na condição de mestre e orientador, é aquele que adota o perfil “bonzinho”, “melífluo” e que “finge que não está vendo” o que ocorre ao seu redor. Jesus agia com brandura e doçura para com os ignorantes, doentes e esfomeados, mas em contrapartida, tratava com severidade e exigência os seus discípulos (pois estes haviam optado por seguí-Lo e dar testemunho das obras dEle e, por isso, deveriam se portar de maneira coerente ao seu Mestre). Não há um só momento em que, observando comentários e atitudes inadequadas de seus discípulos, Jesus prontamente não os tivesse corrigido e chamado a atenção.

A essência ética da Pedagogia de Jesus está contida no Amor. Mas não nesse amor revestido de romantismo piegas de novela, abobalhado. 

O amor de Jesus Cristo é verdadeiro e se expressa como uma postura exigente e que incita a modificação. 

Confessar amor a Jesus Cristo está íntima e obrigatoriamente ligado em assumir uma vinculação integral a uma proposta ética que lança o individuo a um novo patamar de vida nos seus aspectos individual e coletivo. Isso é muito diferente deste “Cristianismo adocicado” (como dizem alguns teólogos) que mistura frases do Evangelho, conceitos de auto-ajuda e de empreendedorismo norte-americano, conforme andamos vendo proliferar nos núcleos religiosos cristãos da nossa sociedade. 

Ligar-se a Jesus é ter visão crítica e ética da realidade de si mesmo e daqueles que o cercam, tal qual Ele houvera tido. 

Não é uma postura de acordos ou de trocas com o mundo, e muito menos com Deus, pela qual eu moldo minha religiosidade e minha espiritualidade de acordo com aquilo que me é conveniente, sem abrir-me ao esforço da modificação de meus hábitos arraigados e das minhas falhas morais. 

Olharmos a vida de Jesus, contida nos Evangelhos, é percebermos que nele há uma constante postura educativa, repertoriada por diferentes tipos de linguagensNa Sua ética, não cabe a conivência com o erro e a mentira, conquanto sempre Ele tivera também as palavras, os ensinamentos e o convite para que cada um olhasse não só para as suas debilidades e as chagas morais que todos carregamos, mas também para os potenciais de evolução de que somos portadores, se, e somente se, optarmos por abandonar uns e abraçarmos outros. De outra forma, estaremos sempre em desacordo com a Educação do Cristo. 

Vícios e Virtudes não caminham para o mesmo lado, seguindo sempre sentidos opostos e que levam a consequências também opostas. 

Com Jesus, aprendemos que tolerar e compreender não é “fingir que não está vendo o erro”. Ser bom “não é deixar de corrigir e repreender”. 

Portanto, não se pode haver uma permissão, mesmo que tácita, dentro do templo religioso, para que expressões cristalizadas dos hábitos negativos que “cada um traz de casa” encontrem morada e se espalhem em um comportamento dominante de seus frequentadores. 

Essas situações, inclusive, concorrem para que haja a abertura para a entrada, no templo religioso, daqueles seres que habitam o mundo espiritual inferior e que não querem a melhora real e o beneficiamento profundo das pessoas, iludindo-as quanto a sua verdadeira condição interior. Promover o cultivo da ignorância e a acomodação, insuflar o desrespeito em forma de deboche para com o líder e as regras da casa , a conversação malsã, são maneiras que os adversários das sombras utilizam-se para promover o bloqueio espiritual daqueles que se deixam influenciar pelas suas sugestões, tentando estender o seu raio de ação sobre todos. 

Por isso é que a vivência no ambiente religioso deve servir justamente para que estas expressões possam ser objetivamente cerceadas (cortadas), dando a idéia clara para o frequentador, principalmente se for um trabalhador, de que aquela maneira de se portar, de falar e até mesmo de se vestir não são bem-vindas, pelo menos no ambiente interno à Instituição, cumprindo-lhe adequar-se

Mesmo não sendo possível e nem conveniente perquirir e exigir-se o comportamento do adepto em sua vida privada - no seu ambiente profissional ou no seu lar - resguardando-se à consciência de cada um a análise sincera para identificar se aquilo que expressa no ambiente religioso é coerente com o que manifesta em sua vida particular, é impostergável manter o ambiente interno do templo a salvo destas ervas daninhas, como as expressões desequilibradas, desrespeitosas, maledicentes, agressivas, viciosas, relaxadas, irresponsáveis e irrefletidas de qualquer natureza, que possam colocar em descrédito a instituição, colaborando para o afastamento daqueles mais sinceros e interessados, fragilizando - conforme o tempo em que perdurem - o senso moral de seus frequentadores e, além disso, maculando o nome da religião e a memória daqueles que tanto lutaram, durante anos a fio, para a consolidação daquela instituição e de seu trabalho de natureza superior. 

Para isso, é imprescindível uma atitude clara de austeridade e a comunicação constante, sem enfado e nem perturbação, da não conivência para com posturas inadequadas e situações que desvirtuem a proposta religiosa do templo. 

O Templo não é feito para os Guias, é feito para as pessoas. Os Benfeitores do Espaço vivem livres pelo Cosmo e não dependem de quatro paredes. Portanto, mais do que um mero ponto de convívio social. Mais do que um local onde se presta a chamada “Caridade”. O templo religioso deve ser colocado a um nível que seja capaz de dialogar com as aspirações humanas. Discutir a questão da morte, dos desafios da vida em família, da vida em sociedade, dos cuidados com a saúde, dos dramas interiores, do papel do umbandista no mundo, da ética religiosa, etc. Proporcionando assim que o seu frequentador tenha uma clara percepção psicológica de que a sua atividade religiosa possui conexão com a sua vida, num todo coerente, exigindo de si uma postura condizente dentro e fora do ambiente do terreiro. 

Saliento que o terreiro deve, necessariamente, servir como um local no qual o indivíduo encontre uma nova proposta de vida. Não deve servir, somente, como um lugar para cumprir meras formalidades da sua vida social-religiosa, mediante a sua presença física desvinculada da emocional e o descompromissado comparecimento a festejos e comemorações. 

Fraternalmente.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

A Visão de um Adepto: A questão da Missão Mediúnica

Por: Gregorio Lucio 

Uma questão na qual sempre reflito refere-se a idéia da chamada Missão Mediúnica, com a qual os adeptos umbandistas (notadamente os médiuns, “cavalos-de-santo”) estamos vinculados ao longo de nossa trajetória neste universo religioso.

Bem, em princípio seria interessante analisarmos o significado atribuído a palavra “missão”. Diz-se, em nosso meio, que o médium tem uma missão junto de seus Guias Espirituais e perante aos “assistidos” (encarnados e desencarnados) por meio de sua mediunidade. Entendo com isso que, conforme o significado específico da palavra em questão, o médium possui o encargo (a incumbência) que é dado a ele para realizar uma determinada tarefa. No caso, a tarefa seria o beneficiamento de outrem por intermédio do trabalho espiritual feito pelo médium e seus Guias. 

Contudo, devemos ter uma visão mais ampla do que seria esse trabalho espiritual (que nem sempre ocorrerá pela mediunidade, diretamente) sob encargo do médium que lhe cumpre realizar ao longo do ano todo (e não só no Natal, como é a ocasião atual) e durante toda a sua vida, dentro de seus limites e possibilidades, é claro. 

Por exemplo, esse trabalho se expressa de maneiras diversas, como o acolhimento e a ajuda de pessoas necessitadas de um auxílio mais “material e imediato” (alimento, roupas, etc.); a visita, a oração em favor e o diálogo fraterno (não é dar passe, nem consulta espiritual) para com enfermos de seu conhecimento e pessoas em situações difíceis e graves a que venha a ser solicitado a prestar seu concurso; o aconselhamento ético, a educação e o esclarecimento do próximo quanto aos princípios espirituais que são de seu conhecimento, em face de sua vivência religiosa como umbandista (e que, naturalmente, exigem do médium, principalmente, conduta exemplar dentro destes princípios). 

Estou enfocando essas possibilidades de expressão do trabalho espiritual, para que tenhamos uma idéia de que a vivência religiosa, como médium, não está restrita e exclusiva às poucas horas que este possa vir a passar dentro do templo religioso. Como costumo dizer, é fácil ser “bom” e “caridoso” dentro do ambiente religioso (no qual passamos em média 2h, uma ou duas vezes na semana, de acordo com o calendário de cada casa). Até mesmo porque ali, dentro deste ambiente, o sistema de relação que impera (como em qualquer ambiente nobre do convívio social) é o da formalidade. 

Mas, a expressão do trabalho espiritual e da verdadeira ligação do médium para com seus Mentores deve estar num contexto muito mais amplo e profundo do que isso. Deve ser mais do que cumprir uma formalidade de uma atividade religiosa. O trabalho espiritual deve estar em uma profunda associação com o restante de nossas ocupações e da maneira como vivemos o nosso dia-a-dia. Isso é viver a religiosidade de maneira coerente. 

Não é estar todos os dias nos trabalhos do terreiro que irá fazer o adepto ter resultados salutares em sua vida religiosa. Ele pode estar ali simplesmente enquanto não tem “outro lugar para ir”. Por que “um familiar ou amigo frequenta aquele lugar, então ele também vai”. Enquanto ainda dure a sua esperança de que aquele lugar vai “resolver o seu problema”. Enquanto não aparece um novo amigo(a) ou namorado(a) ou enquanto ninguém o convide para uma balada ou outra atividade que lhe seja mais atraente...enquanto... Em outras palavras, a presença de uma determinada pessoa no ambiente religioso pode estar ocorrendo de uma maneira completamente destituída de significados e comprometimentos mais profundos

Lembro que a condição capaz de trazer resultados positivos e plenificadores para a vivência religiosa é a maneira pela qual o médium (ou o adepto, de maneira geral) se entrega e vivencia os momentos em que está ali. Claro que os resultados de uma experiência religiosa positiva só podem ser construídos quando estes ocorrem seguindo uma constância e uma regularidade. No entanto, isso não quer dizer, necessariamente, estar presente em todos os dias, num sentido de obrigatoriedade. 

Pelos diálogos que travo com pessoas pertencentes a direção de atividades em ambientes religiosos (alguns terreiros de umbanda, centros espíritas e igrejas evangélicas, mais especificamente), vejo que o grande desafio que se afigura dentro dos templos é a constante tendência dos frequentadores, de maneira geral, em transformar o ambiente de atividades em um simples centro de convívio social, desprovido de mais amplos significados, como qualquer outro existente (a academia, a roda de amigos, o passeio público, etc.) ou, principalmente, num “refúgio” para os desafios que se apresentam no dia-a-dia. Recordo-me de um companheiro que, no meio de uma reunião espírita, confessou a mim de que vinha para o Centro Espírita “pois não aguentava o choro de sua filha recém-nascida e as exigências de sua esposa”. Fora esse, outros casos que já tive oportunidade de conhecer, pelos quais a vida religiosa é assumida numa tentativa de substituir a realidade do dia-a-dia (dificuldades em lidar com parceiros no ambiente de trabalho, conflitos conjugais, desgaste com filhos, desemprego, problemas sexuais, alcoolismo, drogadição, etc.). E essa, definitivamente, não é a melhor maneira de se resolver a questão. 

A busca pelo ambiente religioso como um ponto de alívio emocional e fortalecimento espiritual para o enfrentamento das dificuldades da vida e dos conflitos interiores é compreensível e natural. Contudo, enquanto o indivíduo não identificar em si quais são esses seus conflitos e as facetas de sua vida que merecem a devida atenção e a conveniente solução, a vivência religiosa não terá um efeito maior do que o de um comprimido para dor. A dor passa na hora (os conflitos se aliviam e a emoção se atenua), mas enquanto o problema não for devidamente enfrentado dentro do seu contexto próprio (se profissional, familiar, afetivo, de saúde, etc.) e solucionado (ou pelo menos, conscientemente orientado), essa experiência sempre será um ciclo interminável e até neurótico (tenho um problema, não me sinto capaz de resolver, corro pro templo religioso, alivio a emoção, volto pra casa; levanto no dia seguinte, surge o problema, me sinto fragilizado, volto pro templo religioso, alivio a emoção...). 

Dessa forma, creio que devemos nos integrar a uma postura amadurecida e entender a “missão mediúnica” como um comportamento consciente e assumido de compromisso, ética e parceria para com os Guias Espirituais. 

Quando o trabalho espiritual feito pelo médium junto a seus Guias está alicerçado, de maneira consciente, nestes 3 pilares (compromisso, ética e parceria), é possível realizar uma adaptação das possibilidades de como este trabalho pode ser feito, ajustando-o a necessidades outras que também se exige do médium, para que estejam em equilíbrio (trabalho, família, estudos, lazer e outras). O médium só pode dar na medida daquilo que tem. Tanto para os Guias, quanto para os assistidos. Importa que sua vida esteja, dentro do que é possível, equilibrada e saudável, para que os resultados de seu trabalho no campo mediúnico possam ser cada vez mais compensadores e gratificantes para si mesmo e para o próximo. 

Compete, portanto, a cada médium, identificar quais são as exigências de sua vida cotidiana e conciliá-las para que seus compromissos possam ser assumidos sem maiores prejuízos para si mesmo, fazendo assim de sua trajetória um caminho contínuo e duradouro, superando todas as suas provas e desafios. 

Temos informações obtidas dos Benfeitores Espirituais de que desde, aproximadamente, 60 anos para cá, não se encarnaram mais espíritos na condição de Missionários. Isso porque estamos atingindo um momento social – portanto, coletivo – em que cada um é chamado a assumir a auto-responsabilidade por sua vida, mediante o esforço pelo auto-esclarecimento, pela auto-consciência e por colocar-se, dessa forma, como sujeito ativo e condutor de seus caminhos, deixando de lado a desculpa e a justificativa de seus erros, para isso escondendo-se atrás dos erros dos outros. Cada um deve responsabilizar-se pelas consequências boas ou más de suas escolhas e de sua conduta, trabalhando para que sejam sempre as melhores e mais acertadas possíveis. 

Ou seja, as Leis da Vida nos convidam, cada vez mais, ao amadurecimento psicológico e a entendê-lo como um processo que não surge por simples ação dos anos, conforme a pessoa envelhece, como pode-se pensar a partir de um “senso comum”. Embora todas as pessoas mereçam sempre o nosso maior respeito, idade avançada e cabelos brancos não equivalem diretamente a maturidade. 

O amadurecimento psicológico surge, ao passar dos anos, como um traço que se destaca naqueles, e somente naqueles, que se colocam como responsáveis diante de sua existência e que adotam essa atitude de refletir sobre si mesmos e trabalhar em seu aprimoramento interior, solucionando seus conflitos, diluindo suas carências, se desvinculando de possíveis frustrações do passado e eliminando, gradualmente, seus vícios e maus-hábitos. 

Esse amadurecimento psicológico (na psicologia junguiana, chamado de individuação) pode ser entendido como a essência daquilo que chamamos, no meio espírita, de “evolução espiritual”

Penso que o médium deve se perceber como uma pessoa comum e que necessita se integrar nos diversos contextos, nos quais a sua presente encarnação o coloca (como profissional, familiar, estudante, cidadão e religioso, todos num mesmo nível e grau de importância). Deve buscar ampliar e diversificar as atividades de seu dia-a-dia, adotando hábitos simples, saudáveis e culturais, justamente para se qualificar mentalmente, desenvolvendo seus recursos espirituais que lhe farão, inclusive, servir melhor como médium. 

Devemos ter consciência de que não vivemos exclusivamente para a Umbanda e, muito menos, da Umbanda. Não alimentemos a falsa ilusão, ou até a presunção, de que estamos “salvando o mundo” por meio da nossa mediunidade e muito menos de que a dedicação exclusiva a vida religiosa nos irá livrar das outras experiências que nos são impostas pelas Leis da Vida. 

Assim, será possível estabelecer, cada um dentro de seu momento de vida, uma programação saudável e conciliadora de seus diversos compromissos. 

Fraternalmente.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

A Visão de um Adepto: A Noite Escura da Alma

Por: Gregorio Lucio

Gostaria, nesta nova publicação, de tratar de um assunto pouco discutido ou analisado em nosso meio. Porque envolta em questões que fogem ao contexto dos discursos comuns e, em geral, superficiais, presentes nas comunidades de terreiro, e vinculando-se mais à profundas bases psicológicas da experiência espiritual ao longo da vida religiosa, realmente, torna-se difícil abordar a temática da então chamada “Noite da Alma” ou, “Noite Escura da Alma”, conforme havia sido designada por São João da Cruz, e utilizada pela Teologia Cristã.

A Noite da Alma, ou Noite Escura da Alma, é uma simbologia que se refere a um estado psicológico e espiritual, no qual se apresenta um paradoxo (profunda contradição) interior, pois, embora seja uma experiência iluminativa, esta se caracteriza pela presença de um obscurecimento da alma, dos sentimentos e do sentido religioso, provocando sofrimento.

Talvez pelo fato de que esta experiência sempre o fora relatada entre profundos místicos e pessoas cujas vidas foram dedicadas integralmente à prática religiosa (Madre Tereza de Calcutá teria vivido tal experiência por mais de 40 anos), acabou-se por se desconsiderar que tal experiência é presente também nas pessoas de vida “comum”, principalmente se estas também dispõem, em sua vivência cotidiana, da prática religiosa e se colocam à busca de sentir e vivenciar o Sagrado em sua vida.

Fato é que todo aquele que se vincula, com sinceridade, à vivência religiosa, mesmo não sendo um profundo místico, irá passar, ou já passou, por essa experiência de integração com determinados aspectos desconhecidos (sombrios, noturnos) do seu mundo interior. Mesmo aqueles que não dispõem de uma vida religiosa passam por experiências semelhantes, embora noutro sentido, no entanto, ambas as experiências conduzem o ser humano para um processo de amadurecimento interior e reordenação de sentidos psicológicos para a vida.

Não vou me deter às características da Noite da Alma conforme ela se apresenta, especificamente, na vivência dos místicos religiosos, contudo, irei trazer determinados pontos que se ligam a esta experiência num nível mais comum e próximo a cada um de nós. 

Então, a Noite Escura (da alma) pode surgir na vida do adepto como um estado de perda de sentido psicológico da sua vida religiosa. Um sentimento profundo e inquietante de ausência em relação a Deus e ao Sagrado o invadem, dando margem ao surgimento de várias dúvidas e questionamentos de variadas ordens (doutrinários, místicos, éticos, sociais, subjetivos, etc) que emergem à consciência, ocasionando um sentimento de inadequação, de “estar fora de lugar”. Os atos devocionais, de maneira geral, a prece, a presença nos ritos e, mais particularmente ao nosso meio, o contato espiritual com os Guias e Mentores, embora sempre positivo e saudável, é também caracterizado pela presença de um sentido de penumbra, de obscuridade e de distanciamento psicológico da experiência, tornando-os sofrivelmente insatisfatórios.

O sentido do sofrer, nesta experiência subjetiva do adepto, surge pelo sentimento de desconexão com a Divindade e de afastamento emocional para com os Mentores, aumentando sua frustração pelo fato de que, em muitas vezes, essa experimentação dá-se integralmente numa dimensão interior do médium, difícil, inclusive de ser expressa verbalmente (aliás, me perdoem caso esteja sendo repetitivo em determinados termos, por que justamente é algo bastante abstrato para se colocar em palavras específicas). Juntando-se a isso o fato de que a exposição deste estado interior, geralmente, é extremamente mal interpretada dentro do meio religioso. Muitas vezes é visto como perda, ou falta, de fé por parte do filho-de-santo, por falta de compromisso para com os Guias ou o templo, com melindre, “frescura”, ou, pior ainda, quando se une à visão fanática e ignorante de muitos, terminando por ser interpretada como o afastamento do Orixá por estar em desagrado com o seu filho-de-santo, a presença de obsessão espiritual, demanda, magia negra, etc.

Existem várias linhas de conhecimento que tratam, cada uma a sua maneira, do processo de desenvolvimento psicológico do ser humano. E, seguindo um pensamento de síntese, podemos identificar que passamos, de maneira geral, por períodos em nossa vida em que ocorrem profundas transformações, sejam psicológicas, sejam biológicas e, naturalmente, ocasionando que ambos os aspectos estejam inter-relacionados. Os mais famosos são, sem dúvida, aqueles que compreendem o nascimento, a transição da infância para a adolescência, da adolescência para a idade adulta, da idade adulta para a velhice e, da velhice para a desencarnação. Somado a essas transições naturais, psicobiológicas, pelas quais passamos, existem também as experiências profundas de vida que se constituem como temas importantes e marcantes em nossa jornada: a morte de pessoas queridas, o casamento (e a separação), o primeiro emprego, o desemprego, a dificuldade financeira, a primeira experiência sexual, o nascimento dos filhos (e a desencarnação deles), problemas de saúde, fatos agradáveis junto a amigos, familiares, na vida profissional, enfim....

Estes “temas” comuns, interferem também (lembrando que somos pessoas religiosas, mas pessoas comuns) em nosso estado interior e na nossa relação com a Espiritualidade. Então, é natural que, ao passarmos por alguma destas experiências, soframos os choques que nos conduzam a movimentarmo-nos interiormente a fim de, periodicamente, nos ajustarmos e nos adaptarmos aos novos papéis e sentidos que a vida nos impõe e nos pede. Essas transições causam um relativo estado de sofrimento psíquico, constituindo-se, entretanto, como experiências naturais da vida, mediante as provas que esta nos apresenta. 

Os períodos psicológicos mais propícios para o surgimento da Noite da Alma são os da transição da adolescência para a fase adulta (dos 28 aos 32 anos, aproximados) e da fase adulta para a velhice (dos 50 aos 60 anos). Isso porque ambos se referem a períodos da vida em que é exigida, da parte de cada indivíduo, uma definição clara e com consequências sérias, sobre quais são os seus objetivos diante da vida.

Na entrada para a vida adulta, a saída do lar, a busca pela estabilização profissional, a constituição de uma família, sustentar-se por si mesmo integralmente, etc. Na entrada da velhice, a nova condição de limitação do corpo, a diminuição no ritmo profissional, o esvaziamento do lar, a necessidade de encontrar novas metas, uma vez que as da fase adulta já passaram, sendo conquistadas ou não. Esses dois momentos fazem emergir dois sentimentos estruturantes na experiência propícia ao amadurecimento psicológico: a angústia e o abandono (Jesus: "Meu Deus, Meu Deus, por que me abandonastes?"- Mateus 24,46).

Assim, o indivíduo que se apresenta imerso neste estado de Noite da Alma, tende a permanecer em períodos maiores de silêncio, não somente dentro do templo religioso, mas em sua vida cotidiana também, numa postura de maior introversão, tendendo também a manter-se mais isolado, em relação à comunidade religiosa.

Um sentimento de tristeza e de desrealização também faz-se presente, muito embora estes não se expressem ao longo do dia-a-dia, enquanto o indivíduo se entretém com as atividades profissionais, familiares, de lazer, etc. De acordo com o contexto de vida de cada um, esse estado pode se caracterizar também por dificuldades em sua vida particular. Projetos não se realizam ou se postergam, de maneira não planejada, ocasionando um aprofundamento neste sentimento de desconexão espiritual e de frustração.

Um fator importante a ser considerado por aquele que esteja, neste momento, passando por tal experiência. Não deixar que seu estado interior interfira, predominantemente, de maneira prejudicial em sua vida cotidiana. E para isso é preciso, exatamente dentro do objetivo deste texto, entender-se esse estado como sendo natural e possível na experiência religiosa e espiritual, pois é um processo de nossa consciência “movendo-se” para uma nova ordenação de sentidos de quem somos e de qual o nosso papel diante da Vida e de Deus. É um processo de tentativa para se atingir um nível mais amplo e elevado de consciência.

Saliento que, enquanto dure a Noite da Alma (não há um tempo preciso para início e término, depende da experiência de cada um), o indivíduo não perde sua fé, nem sua crença nos Guias, Orixás e em Deus, tão pouco deixa de estimar e gostar de seus irmãos de comunidade. No entanto, está vivendo um estado de introspecção, convidativo à períodos maiores de meditação e reflexão em torno de sua vida e de seus objetivos existenciais. 

Contudo, conforme já dito, é preciso entender, tanto aquele que vive a experiência, quanto aqueles que o cercam (até porque, cedo ou tarde, passarão, se já não passaram, pela Noite da Alma) que esta condição interior não deve se tornar um tormento insuportável que atrapalhe sua vida, de maneira geral. Isso é um processo para o atingimento de um novo estado psíquico (que não tem nada de mágico ou fora daquilo que não seja natural à condição humana). Compreender essa experiência é importante pois, caso contrário, pode gerar um sentimento de grande conturbação, acarretando num impulso inconsciente para o abandono e a renúncia de tudo quanto o indivíduo até então acreditava e se dedicava, como sendo fundamental para a sua vida, gerando processos maiores de sofrimento injustificáveis, pela atitude impensada, inconsciente e imatura.

Dessa forma, uma vez tocado pela Noite da Alma, permita-se o indivíduo à presença da dúvida diante de Deus e de tudo quanto essa dúvida se mostrar. Permita-se, sem culpas, vivenciar essa insatisfação e esse sentido de desconexão espiritual. Natural até, que sua presença na vida religiosa, durante esses períodos de “noite" e “escuridão”, se faça menos frequente e preenchida por um sentido de vazio. Não se culpe por sentir-se insatisfeito e incompleto, conquanto também não transfira para os outros as causas da sua incompletude e insatisfação (por mais que muitas vezes outros, principalmente no meio umbandista, nos dêem muitas razões para isso). 

Deixe, sem medos, que esse Deus “morra” (ou seja, a experiência interior com Deus, que até então havia sido construída e acomodada dentro de si) para que possa renascer, renovada. Para Deus e para Cristo (no caso daqueles que são cristãos), assim como para os Orixás, se de fato eles existem, não há problema algum que você os esteja repensando e reelaborando as suas experiências com eles dentro de si mesmo. 

Certezas inabaláveis e inquestionáveis. Idéias que não se transformam e não se ampliam. Fé que não raciocina, que não interroga a si mesma e que não dialoga com a realidade interior e exterior ao indivíduo, em geral, são indicadores graves de uma perigosa acomodação espiritual. Não nos deixemos tornar, conforme a letra de um rock inglês, muito famoso, que tenho ouvido muito ultimamente, “confortavelmente entorpecidos”.

Contudo, persevere o indivíduo em sua busca por alcançar novos sentidos na sua relação com a Divindade e com a Vida. Não abandone a prática da prece e da oração, mesmo que nestes momentos se façam mais sofríveis e, até, frustrantes. Não se dê licenças morais para “experimentar” tudo o que até então não se permitia, justificando-se em seu estado de obscurecimento, o qual é, conforme já dissemos e ressaltamos, perfeitamente natural. E, se esse sentimento tiver um peso emocional muito grande para ser suportado, talvez por que esteja se ligando a outras questões emergentes de ordem psicológica, nada mais saudável que buscar um aconselhamento e um acompanhamento com um profissional da área.

Aplique-se em reservar momentos diários, mesmo que breves, para meditar e refletir, consigo mesmo, sem censuras nem repreensões para si mesmo, em torno da razão destes sentimentos que o invadem e, aos poucos, com o passar do tempo, irão surgindo novas possibilidades e novos sentidos para o existir e para co-existir em Deus, proporcionando um gradativo amadurecimento interior, preparando-o para novas e mais amplas experiências que se sucederão.

É necessário coragem para o auto-enfrentamento. Atravessar os vales escuros dos quais estamos repletos interiormente, pela condição de seres humanos, ainda rumando para a conquista da iluminação interior e da libertação do sofrimento. Entretanto, essa libertação iluminativa só ocorre quando mergulhamos em nossa escuridão tonando-a consciente em nós. Lembremos que a Luz surgiu das Trevas e não o contrário. 

Muitos ainda fogem deste enfrentamento, por maiores e contínuos sejam os convites da vida para tal cometimento, derrapando, alucinados pelas distrações da vida social, dos hábitos perniciosos, do cultivo de tudo quanto se perde ao longo do tempo, tentando postergar o dia em que deverão olhar para dentro de si mesmos e se auto-enfrentarem, e despertarem diante de seus medos, dúvidas, frustrações, angústias, aflições, etc.

Por mais dolorida e sofrível, seja essa a oportunidade de acender uma luz no seu mundo interior, para a conquista de um novo patamar em seu estado subjetivo, de maneira a viver saudavelmente as experiências a que somos convidados a nos integrarmos conscientemente. 

Saravá a todos.