quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

A Visão de um Adepto: Relações Humanas e o Sentido Religioso

Por: Gregorio Lucio


O templo é a instituição representante de qualquer religião na sociedade. É o local para onde os seguidores dirigem-se afim de sentir o contato com o Sagrado de maneira mais intensa, além de poder compartilhar com o próximo a sua fé.

Assim, os Terreiros recebem diversas pessoas com as mais variadas necessidades e expectativas em relação a religião de Umbanda. Há aqueles que chegam ao terreiro devido a intercorrências da vida (doenças, perda de familiares, crises financeiras ou de relacionamento, desemprego, etc). Há outros que estão vinculados pela própria história familiar, sendo frequentadores da religião desde a infância ou juventude. Há também aqueles que buscam a religião por um sentido de chamado espiritual, o qual emerge com um sentimento de vazio ou inquietação indefinida. Entre muitas outras possibilidades.

Mas, desconhece-se, até então, a realidade da casa e o que, de fato, esta tem a oferecer em termos de propostas e vivências, pelo fato de que a identificação inicial com o templo ocorre, na grande maioria das casas pela visita aos trabalhos a partir da assistência (pois muitas não adotam cursos ou reuniões breves para os novos frequentadores se adaptarem ao ambiente e cultura da instituição). Adquirimos, por isso, uma compreensão somente externa daquilo que está acontecendo dentro do Terreiro.

Idealizamos as pessoas que se apresentam a nós como referência dentro da casa. Imaginamos momentos significativos de contato com o Sagrado. Esperamos por obter ensinamentos continuados que possam aprofundar o nosso conhecimento da religião e de nós mesmos. Idealizar, imaginar, programar, esperar. Isso tudo é parte natural da nossa introdução a qualquer experiência nova. Seja quando iniciamos um curso qualquer; quando entramos numa universidade; quando entramos numa academia ou iniciamos uma terapia.

No entanto, com o passar do tempo, a realidade se apresenta, podendo nos causar frustrações ou gratificações diversas, em torno das pessoas, da casa e de nós mesmos.

Podemos nos sentir gratos quando alguém nos recebe com alegria, cumprimentando-nos com um sorriso espontâneo; quando um irmão ouve com atenção e paciência as nossas dúvidas ou pensamentos. Quando participamos de um trabalho e presenciamos a emoção de uma pessoa que fora auxiliada; quando observamos e nos tocamos com a fé e dedicação de algum irmão ou de nosso sacerdote. Quando temos a oportunidade de ajudar em alguma atividade da casa.

Da mesma forma, também passamos a identificar disputas internas, entre dois ou mais membros da comunidade. Presenciamos comportamentos questionáveis por parte de alguns. Vemos pessoas afastando-se ou sendo afastadas. Sentimos, nós mesmos, o desejo de nos afastar. Não compreendemos a razão de determinadas posturas, decisões, comportamentos e hábitos de um irmão ou mesmo do nosso sacerdote. Frustração.

Por um outro lado, identificamos em algumas dessas mesmas pessoas (não em todas, pois há aqueles que encontram-se numa condição, embora momentânea, em que talvez tenham como significado somente o de servir como um mau exemplo), valores e condutas que por vezes não reconhecemos em nós mesmos. Devoção. Compromisso. Companheirismo. Carinho. Atenção. Alegria. Respeito. Seriedade.

Outras vezes, a insegurança perante os trabalhos espirituais nos envolve, ao acharmos que fomos colocados em meio ao trabalho sem termos recebido as devidas orientações anteriormente, soando como se tivéssemos que "fazer" ou nos comportar de determinada maneira, simplesmente porque "deve ser assim". Essa despersonalização, causada por ter que repetir posturas e comportamentos sem ter uma noção clara de seus significados, cria, por vezes, sentimentos de estranheza e tédio.

Conquanto, em outras situações, ao participarmos de mais uma noite de trabalhos da casa, podemos receber uma intuição ou mensagem marcante em nosso coração. Surge-nos uma inspiração com uma resposta para determinado conflito ou problema que estejamos vivendo. Saímos do trabalho com um forte sentimento de amparo e conforto para continuarmos em nossa vida comum do dia-a-dia. Reconhecemos a presença sutil, indefinida, porém, certa, de que estamos sendo sustentados e envolvidos por uma dimensão Sagrada e Divina que emana das correntes espirituais presentes no Terreiro a que pertencemos.

Perceba o amigo leitor que tenho intercalado questões contraditórias. Ora, dúvidas, frustrações, questionamentos, receios. Ora, certezas, gratificações, respostas, confiança. Tudo isso para simbolizar o lado Humano e real presente no Terreiro. É essa condição de Humanidade presente dentro do ambiente religioso, com suas contradições, idiossincrasias, virtudes e valores, que nos coloca em contato com a realidade existencial das criaturas humanas.

Cada um, na sua subjetividade, constrói e acumula suas próprias experiências, seja dentro dos templos, seja em sua vida particular cotidiana, as quais resultarão nas bases para o sentido da fé no íntimo de cada fiel. Mas a presença do Sagrado, por meio dos Orixás, Guias e Protetores, é qualificada pelas pessoas humanas que compõem o corpo de adeptos de cada Terreiro. Se temos uma casa onde, apesar da existencia de possiveis conflitos predomina o interesse sincero no trabalho, no auxilio ao próximo, na expressão da fé religiosa, o contato com o mundo espiritual superior faz-se mais intenso e marcante. Se, ao contrário, as relações se estremessem e os conflitos são contínuos, a ponto de dominarem o ambiente, a discórdia e o desinteresse, crescem, promovendo o afastamento da dimensão Sagrada que deveria estar presente ali.

É importante ponderar essas questões para entendermos que a presença dos Guias e Protetores, Santos, Orixás, Mentores de Luz, Espíritos Superiores, Anjos, Espírito Santo, seja lá a maneira como cada templo religioso denomina a presença do Sagrado em seu ambiente, ocorre em função das pessoas que lá estão, pois são elas mesmas a ponte por onde esse mundo transcendente pode acessar a nossa dimensão física, corpórea, humana.

Sendo assim, se por um lado o sentimento da fé é uma experiência particular que surge no interior de cada ser humano como elo sutil entre o homem e o Divino, na experiência religiosa, é somente no contato e vivência com o outro (com o irmão de fé e com o sacerdote) que esta vivência da fé estrutura-se e preenche-se de significado. A fé se constrói na experiência concreta das relações humanas. Quando optamos por experienciar a fé adotando uma denominação religiosa, nos sentimos ligados espiritualmente ao Sagrado na mesma razão em que nos reconhecemos acolhidos e pertencentes ao templo que nos vinculamos.

Os sentimentos de acolhimento e pertencimento à religião e ao templo religioso, são despertados ao longo do tempo e sucedem-se em fases.

Primeiramente, o acolhimento. Ser bem recebido e bem tratado é fundamental para que o neófito sinta segurança e identificação com os frequentadores da casa. Esse processo de acolhimento geralmente se desenvolve no primeiro ano de frequência por parte do novo fiel. É neste período em que ele vai estabelecer os primeiros contatos com os seus irmãos, expor suas necessidades, conflitos (caso os tenha), dúvidas e experiências passadas, Poder contar com irmãos receptivos, atenciosos e desinteressados, sem afetação e emotividade desnecessárias, é importante para que este possa reconhecer-se bem recebido e contando com pessoas que estejam a fim de ouvi-lo e orientá-lo minimamente.

Por isso, as "panelinhas" são tão negativas. Embora seja natural que por questões de afinidades (muitas vezes, momentâneas) as pessoas com identificações procurem-se dentro da casa, estabelecendo vínculos, é preciso que sejam incentivadas (e esse é um papel que cabe à direção e aos orientadores dos grupos de médiuns do terreiro) a conservarem uma postura de abertura junto aos novos frequentadores. Isso porque as "panelas" tendem a isolar os novos entrantes da casa, o que pode gerar um sentimento negativo de insegurança e inadequação nestes.

Em seguida, passados estes primeiros 12 meses (em média) correspondente ao período de adaptação e acolhimento, espera-se que o novo frequentador da casa, possa construir o sentimento de pertencimento àquele ambiente cultural e religioso. Esse sentido, contudo, também depende totalmente da experiência que o adepto realiza com seus irmãos de fé e seu sacerdote. Eu entendo que para nós nos sentirmos pertencendo à religião, ao Terreiro que seguimos, não basta simplesmente um sentimento de fé e de confiança naquela determinada crença e no seu sacerdote. Devemos nos reconhecer como fazendo parte de um meio que possui raizes, histórias, memórias, valores e princípios muito bem consolidados e claros. Essas "coisas" devem ser transmitidas aos novos frequentadores e lembradas aos que já possuem mais ou menos anos de casa.

Penso que devemos, todos nós umbandistas que frequentamos um Terreiro, refletir com ponderação e moderada preocupação (e não somente achar que isso é um problema exclusivo da direção da casa), quando uma pessoa decide se afastar de nossa casa. Será que é simplesmente "falta de fé" ou "falta de compromisso"? Ou será que as relações humanas não estão sofrendo com conflitos e posturas nocivas, muito embora pontuais, impedindo que se crie ou amplie os sentimentos de acolhimento e pertencimento que são tão importantes na formação da identidade religiosa por parte do fiel?

Quando há uma centralização e interdição muito forte e presente dentro do Terreiro, em relação ao conhecimento histórico, às memórias, afetividades e ensinamentos pertencentes a este, torna-se também difícil o reconhecimento íntimo de que pertencemos àquele lugar. É simples. Como posso fazer parte de algo, de um lugar ou de um grupo de pessoas sobre os quais sei muito pouco ou nada sei? Talvez essa regra não se aplique àquelas pessoas de feição psicológica mais passiva e submissa. Mas, num âmbito mais comum, onde estão as pessoas de capacidade de raciocínio e crítica média, na qual nos encontramos a maioria de nós, simplesmente o sentimento de "estar submetido" ou "entregue" a algo ou alguém não satisfaz mais.

Mas também não quero desconsiderar a responsabilidade individual dos frequentadores, sejam os novos ou antigos, em relação as suas escolhas de se manterem ligados ou de se afastarem do Terreiro. Com tudo isso o que disse, não estou querendo colocar tudo sob a responsabilidade dos "outros". Se irá permanecer, e de que maneira irá permanecer; assim como se irá embora, e de que maneira acontecerá isso, é também responsabilidade do indivíduo.

Não serão incomuns os dias que, ao chegar no seu terreiro e saudar os irmãos, praticamente não ouvirá ninguém lhe respondendo de volta. Isso faz parte (embora não justifique). Porque o tempo nos acomoda e nos torna distraídos para determinadas coisas. Entretanto, sempre haverá um sorriso fraterno e educado o suficiente para lhe retribuir o cumprimento. Que pequenas coisas possam bastar para a nossa satisfação enquanto percebermos significados reais e propósitos duradouros naquilo que escolhemos seguir.

Haverá várias oportunidades em que nos depararemos com conversações infelizes ao nosso redor, provocadas por irmãos distraídos, dentro do ambiente do terreiro. Mantenhamos o silêncio respeitoso, de nossa parte. Não nos deixemos contaminar e reflitamos que também nós por vezes também agimos de maneira infeliz e necessitamos da paciência e do silêncio de outros para também nos suportar os momentos de desequilíbrio e infelicidade.

Possivelmente, nos veremos cercados por irmãos fazendo brincadeiras desnecessárias e nos convidando para irmos ao barzinho ali, depois dos trabalhos. Reflitamos a respeito de suas propostas e condutas, e analisemos se a presença em determinados ambientes são compatíveis com alguém que acabou de sair de um trabalho espiritual. Vale lembrar que essas pessoas estão equivocadas e não nos devem servir como parâmetro, nem seus hábitos e valores devem ser aceitos e adotados por nós. Tão pouco, esses comportamentos e preferências, embora reais e presentes em muitas pessoas, representam os verdadeiros valores e propósitos de vida a que a Umbanda nos convida.

Certamente, passaremos por ocasiões em que o deboche, a fofoca e o queixume nos cheguem aos ouvidos. Não nos deixemos levar. Entrar nesta vibração nos envenena o coração e enfraquece nossas forças, paralisando-nos. Por outro lado, desculpemos o comportamento irrefletido do nosso próximo. Analisemos se o que diz, e até que ponto daquilo que está falando é útil ou tem veracidade. Tiremos o que serve para nós, o resto deixemos ir embora com ele. E, de nossa parte, não nos permitamos, a nós mesmos, sermos também veículo dessas palavras que desestimulam, criam descontentamento e conflitos entre irmãos de fé.

Devemos conservar uma postura de tolerância e compreensão, sempre. Reconhecendo os valores positivos que cada um traz consigo, de maneira a nos tornarmos mais próximos, moralmente e psicologicamente, dos demais. Tenhamos sempre uma atitude de compaixão e empatia. Educação e respeito. Sobriedade e disciplina. Silêncio e serenidade. Porém, não deixemos jamais de buscar corrigir em nós e também em nossos irmãos, com tranquilidade e singeleza, as expressões menos felizes e condutas inadequadas quando elas se apresentem e estejam dentro de nosso alcance. Para aqueles que pouco ou nada podemos fazer, principalmente os mais velhos de casa que prosseguem numa postura irresponsável e desrespeitosa, deixemos eles a cargo e responsabilidade dos dirigentes, sem nos abalar com seus maus exemplos, no entanto, sem, em momento algum, sermos coniventes e compartilhadores de suas posturas, hábitos e ideias.

E, por fim, pensemos antes e acima de tudo, a respeito de nossos próprios propósitos e conduta. É importante conservarmos uma postura madura e responsável, independente da casa a que optarmos por nos vincular, buscando ser úteis, cooperativos e conciliadores. Não significa fazer de conta que não está vendo situações que lhe causam desconforto e conflitos. Mas é, apesar disso, saber se posicionar perante esses acontecimentos e pessoas, e prosseguir sua caminhada, dando valor a outras coisas que lhe sejam mais internas e menos centradas no comportamento alheio.

Observemos a conduta do nosso próximo, compreendendo as suas diversas formas de apresentação, por se tratar de um ser humano, com virtudes e defeitos, porém saibamos guardar para nós somente o que for bom e saudável. E, sempre, cuidemos principalmente de nossas próprias expressões, pensamentos e palavras, para que estejamos seguros, éticos e coerentes com nossos próprios princípios diante da seara que optamos por seguir, dentro das Leis de Umbanda.

Saravá!

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

A Visão de um Adepto: Conversão Religiosa e Conduta

Por: Gregorio Lucio

Tenho o costume de acompanhar os canais no Youtube, fóruns de discussão e hangouts que tratam da Umbanda. São uma fonte interessante de informações e possibilidades de troca e enriquecimento quando os programas elaborados obedecem a um sistema simples de transmissão de conhecimento, temáticas, idéias e possibilidades de vivência da Umbanda diferentes daquelas que conheço.

Contudo, participei de uma conversação (hangout) que me fez parar pra pensar e tratar da questão da postura do Umbandista diante da sociedade, pois essa conversa em video que assisti simboliza muito dos ditos adeptos da religião que já tive oportunidade de conhecer (inclusive, hoje cedo, viajando de metrô, tive oportunidade de ouvir a conversa de três pessoas, na qual um deles, que se dizia umbandista, tentava também explicar as "coisas" da religião para os amigos).

O apresentador do video, como dizia anteriormente, embora a sua intenção louvável de abrir um canal na internet e trazer "esclarecimentos" sobre a religião, assume uma postura e expressão que reflete em muito a de vários indivíduos do nosso meio. O assunto era "mistificação" (ou, marmotagem, como diz-se popularmente). O apresentador, de roupa branca e guias no pescoço, desfecha uma montanha de palavrões e xingamentos, tal como se estivesse numa mesa de bar de quinta categoria, enquanto tentava dizer que aqueles (os mistificadores/marmoteiros) denigrem a religião de Umbanda e colaboram para a sua discriminação...

Pois bem, é verdade. Mas, e a postura dele? Seu linguajar chulo, agressivo e desrespeitoso? Qual a sua credibilidade para tecer críticas sobre os outros?

Da mesma forma, o rapaz no metrô que estava tentando explicar a religião e falar da "grande fé e confiança" que tinha em sua religião, há momentos antes, dizia em alto e bom som os maiores disparates contra seu chefe e alguns de seus colegas de trabalho (que não estavam presentes ali), além da "cachaçada" que havia participado no último fim de semana...

Bom, não sei quanto ao leitor, mas eu vejo que ainda predomina um conceito em muitos núcleos umbandistas de que "o que o indivíduo faz fora do terreiro não importa" desde que "cumpra as obrigações para com o seu terreiro, os seus Guias e Orixás". Sinceramente, eu discordo dessa visão.

Mais do que nunca, nosso meio religioso precisa adentrar neste tempo contemporâneo e trazer consigo valores mais amplos e que impliquem numa aquisição de consciência ética por parte de seus adeptos.

Não é mais admissível, numa época em que discutimos tanto a questão da ética na política de nosso país; num momento em que tanto falamos e cobramos valores que demonstrem nobreza de caráter e conduta moral sadia por parte dos nossos representantes, que os umbandistas (naturalmente, não são todos, é claro) apresentem-se na sociedade de maneira tão baixa, distraída e irresponsável.

Fico imaginando as pessoas que estavam ao redor daquele rapaz, meu "irmão de fé", hoje pela manhã no metrô, assim como aqueles que ocasionalmente poderão vir a assistir ao video de tamanha infelicidade de seu apresentador...Não me espanta o fato de tantas pessoas rechaçarem uma aproximação com a Umbanda. Apesar do preconceito histórico que existe em relação a cultura afro-indígena, das quais a Umbanda é herdeira, é de se pensar se muito deste ranço negativo, deste desprezo e destas ressalvas que muitos cultivam para com nossa religião em parte também não são estimulados pelas posturas e condutas que o próprio umbandista assume diante da sociedade.

Certa vez, indiquei uma pessoa, por pedido da própria (pois não tenho costume de ficar indicando terreiros para as pessoas), pois esta estava passando por um problema sério em sua vida (conjunção de complicações graves de saúde, com cirurgias recentes e tratamento para depressão, morte de pessoa próxima na família, perda de propriedades familiares, etc), a procurar um dos terreiros de Umbanda de meu conhecimento. A pessoa foi ao local, participou de duas giras (2 trabalhos no espaço de 2 semanas), e não voltou mais. Após um tempo, quando reencontrei a pessoa, perguntei-lhe se ela havia continuado a ir na casa, se estava realizando o tratamento, etc (até então, desconhecia o ocorrido), ela respondeu-me que havia comparecido aos trabalhos, que havia gostado da casa, achado bonito, etc., mas que não gostaria de voltar porque havia visto um grupo de médiuns da casa fumando despreocupadamente e fazendo piadas na porta do terreiro.

De minha parte, eu aquiesci com a escolha dela, baixei minha cabeça em sinal de respeito, disse que compreendia sua decisão e o máximo que poderia fazer era pedir desculpas por eles...

A Umbanda precisa sair do seu reino encantado e murado que envolve os terreiros e passar a ser a fonte de princípios e valores que efetivamente estejam incorporados a vida de seus adeptos. Do que adianta "incorporar" uma entidade espiritual se o indivíduo não é capaz de incorporar em sua conduta regras básicas de boa educação e saúde? Do que vale anos de preceito, obrigações, guias no pescoço, frequentar giras e mais giras, tomar banhos disso e daquilo e mostrar-se na sociedade de maneira tão relaxada e grosseira? Isso não é um comportamento aceitável, embora a sua realidade, para uma pessoa que se diz religiosa.

A religião, no seu sentido mais elementar, propõe justamente o rompimento do indivíduo com o "mundo". Ou seja, a aquisição de uma crença religiosa pede ao indivíduo um afastamento dos hábitos, determinados círculos sociais (e até mesmo determinadas pessoas) que anteriormente faziam parte de sua vida. É uma ruptura mesmo, na qual seja possível abrir um campo psicológico para o distanciamento do "homem velho" e surgimento do "homem novo" que iniciará sua jornada na vida religiosa. Esse momento de ruptura com o mundo, de afastamento do passado para dar campo e surgimento de comportamentos novos, mesmo que ainda superficiais, ocorre por meio da conversão. A conversão é a mudança qualitativa na consciência do indivíduo.

Agora, isso parece não estar ocorrendo no íntimo de muitos de nossos irmãos. Adota-se a crença na religião de Umbanda, assume-se compromissos, realizam-se preceitos e mais preceitos... mas o indivíduo permanece de mãos dadas com os comportamentos e hábitos psicológicos que sempre carregou.

Será que não estamos conseguindo atingir o "coração" das pessoas que se integram a cada dia em nossas fileiras, entregando-as e a nós mesmos a uma estrada de fantasias? Será que não estamos rumando para um farisaísmo moderno?

Não trata-se de moralismo, nem de pieguismo. O fato da Umbanda ser uma religião aberta e não dogmática, que não cerceia e não "doutrina" seus adeptos, não significa que estes devam ver-se como se estivessem completamente descompromissados ou desvinculados das noções básicas de ética, moralidade e educação mínimas que uma pessoa que diz ter compromissos religiosos e uma proposta de espiritualidade deve seguir, independente do credo que espose.

Até quando continuaremos a presenciar nossos irmãos de fé apresentando-se de maneira tão mundana e até grotesca, empunhando copos de cerveja, maços de cigarro, posando para fotos em porta de bares, com vocabulário chulo, atitudes anti-éticas no ambiente de trabalho?

Há quem vá dizer: "Eu conheço pessoas de outras religiões que também se portam assim".

Eu respondo: E isso é desculpa para que o umbandista se mantenha no mesmo nível de conduta daqueles que erram? O erro do outro serve para balizar o comportamento do umbandista? Porque todos saem pra beber, o umbandista precisa sair junto? Ou, pior: o umbandista é quem vai organizar a bebedeira?

Há, ainda, outro que pode dizer: "Mas a religião não é para os doentes? Se a pessoa já fosse tão correta, para que ela precisaria da religião?"

Eu devolvo: Sim, é para os doentes. Mas é para o doente ser curado e não para se reforçar a doença que ele tem, fazer de conta que ela não existe ou de que irá resolver-se magicamente, com obrigações,  banhos, etc. Principalmente no que diz respeito às questões emocionais perturbadoras e negativas para a saúde. Temos que nos tornar uma religião de bom senso,  de razoabilidade,  de verdade. Não um culto infantil, repleto de fantasias e crendices. Ou seja, a vivência religiosa deve ser uma porta de acesso ao mundo íntimo do adepto, pela qual ele mesmo entre e possa se auto examinar. Mais que isso. A vivência religiosa deve ser a base para que o adepto possa construir uma consciência crítica sobre si mesmo e sobre o mundo que o cerca, de maneira que possa avançar nas etapas de sua existência, como sujeito maduro e equilibrado. Quando isso não se verifica, demonstra que há falhas neste processo.

Penso num tempo em que não terei mais que ouvir, como sempre ouço, tantas pessoas que após anos e anos de busca e vivência dentro da Umbanda, em dado momento cansam-se, "despertam" e convertem-se a outras religiões, aparecendo até mesmo em programas de TV para dizer que "durante anos andou enganada", "servindo ao Diabo", "estava iludido", etc. Ou, quando não terei mais que responder a determinadas pessoas: "Pra que serve a Umbanda?".

Você, irmão umbandista, que ainda sofre com a sombra "homem velho" dentro de si. Embora a Umbanda não seja uma religião bíblica, gostaria de lhe propor este exercício psicológico. Pergunte-se, o que você quer ser? Quer ser Saulo, homem rude como muitos de sua época e cruel perseguidor dos cristãos? Ou quer ser Paulo, o convertido na Estrada de Damasco e propagador das ideias cristãs? Você está aqui, como Umbandista, para ser "igual a todo mundo", um "cego guia de outros cegos" ou está aqui para, como Umbandista, ser uma luz, uma referência e o portador de uma mensagem de esperança para aqueles que estão perdidos?

Saravá!

domingo, 16 de novembro de 2014

Lançamento do Livro Umbanda de Nego Véio - Versão Digital

Prezados,

Boa noite!

Desejamos anunciar o lançamento da primeira edição do livro "Umbanda de Nego Véio - Compêndio de Estudos" constando os textos que foram elaborados entre julho de 2011 a janeiro de 2013.

O link abaixo possibilita o download gratuito desta obra em formato digital para todos o que estiverem interessados.

https://drive.google.com/open?id=0BygBTBuzL--HZTBwMU9Ha19SVEk&authuser=0

Esperamos que apreciem.

Atenciosamente,

Umbanda de Nego Véio

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

A Visão de um Adepto: Quando a Experiência do Rito torna-se Vazia

Por: Gregorio Lucio

A Umbanda é uma religião riquíssima em seu imaginário e em seu mundo simbólico. Ambos alimentam a ampla diversidade ritual que existe nas mais diversas tradições seguidas em cada cazuá.

É pela ritualidade que se cumpre o processo prático religioso na Umbanda. A ritualística é fundamental para a transmissão simbólica da energia psíquica mobilizada em seus trabalhos mágico-espirituais. Toda a experiência religiosa feita dentro dos círculos umbandistas centra-se nos ritos.

O ritualismo, entendido como um sistema litúrgico que contempla um conjunto de ritos, promove a sujeição do adepto à experimentação ritual e a introjeção dos significados dos símbolos que neles (nos ritos) congregam-se, com o objetivo de repetir ou reviver (pelo menos na tentativa de) uma experiência individual transcendente de comunhão com o Sagrado.

Contudo, muitas vezes o ritualismo pode tornar-se um veículo estéril para essa experimentação. Principalmente quando há um apego desproporcional ao zelo das normas contidas na tradição religiosa em prejuízo ao espírito de abertura para a figura humana do adepto religioso com a sua subjetividade.

Uma vivência em torno de ritos e símbolos que não acompanham o desenrolar da jornada humana no suceder do tempo social, histórico e psicológico compromete seu poder de mobilização de energia psíquica/anímica pois sofre um processo de esvaziamento de significados e deixa, aos poucos, de ser uma experiência atrativa para o espírito. Essa é uma reflexão sempre válida no ambiente religioso. O ritos, símbolos e crenças devem carregar um discurso e uma transmissão de sentidos que tenham conexão com a realidade interior das pessoas de hoje para que possa conservar seu poder de atração.

Isso porque o excesso de ritualismos e a ausência de símbolos suficientemente significativos acaba por sufocar a individualidade do adepto e não permitir o seu desenvolvimento interior, prendendo-o num círculo repetitivo de vivências superficiais e exteriores e com pouca penetração em seu universo íntimo, para promover significativas transformações. Os resultados possíveis, ao final, são os sentimentos individuais de cansaço, acomodação, alienação e vazio.

O valor de um símbolo religioso ou de um ponto de crença não pode ser de maior relevância do que a pessoa que o vivencia, assim como não deve ser maior do que a natureza do trabalho que esta desenvolve.

Devemos refletir sobre as práticas rituais e qual a sua real penetração e valor no processo de transformação e melhora individual dos seguidores da religião de Umbanda. Em que contribuem, se de fato contribuem e até que ponto contribuem para a sua transformação íntima?

Caso contrário, o zelo pela tradição e o apego ao simbolismo estéril pode fazer-nos cair em um farisaísmo moderno, repleto de normas, excesso de zelo pela tradição e pouca abertura para uma real conexão entre a vida religiosa do adepto e o seu mundo de relação diária. Ou, o que é pior: a distorção psicológica do adepto a respeito das relações entre a sua vivência religiosa e a vivência social diária, por achar que uma não tem ligação ou repercussão sobre a outra ("faço o que bem entender da minha vida, desde que eu 'cumpra as obrigações' dentro do meu terreiro").

E tudo isso por conta de uma experiência desconectada de um senso de realidade prática e pouco atraente ao mundo interior do adepto umbandista que deseja uma vivência mais profunda de valores e centrada em uma compreensão abrangente da vida humana.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Da Experiência Religiosa

Por: Gregorio Lucio

Pensando a respeito da experiência religiosa, cada qual vivencia-a de maneira diferente, conforme o sujeito identifica-se (ou não) e relaciona-se com os símbolos, ritos e discursos pertinentes ao campo religioso ao qual encontra-se vinculado.

Difícil pensar que todos os pertencentes a uma dada comunidade religiosa relacionem-se com a experiência espiritual de uma mesma forma. Alguns encontram maior sentido na vivência religiosa, por meio do trabalho comum e diário, mesmo que simples, no silêncio de um pequeno grupo dentro daquela comunidade (como participar da organização do depósito, auxiliar na limpeza, na lanchonete, a cuidar dos jardins, da biblioteca, das atividades da secretaria, etc); outros, vivem a sua religiosidade no desempenho do trabalho social (nos projetos e atividades de atendimento aos que chegam necessitados de amparo de todo o tipo); outros ainda, identificam-se espiritualmente estando presentes nas celebrações religiosas, pelo encantamento produzido pela liturgia, por ver a casa cheia de pessoas, comungando sentimentos e expectativas, na experiência coletiva daquilo que chamamos de fé.

Geralmente, costuma-se eleger os trabalhos de "ordem espiritual" (aliás, o que é "espiritual" e o que é "material"? não é no trabalho da matéria que o espírito se aprimora?) como estando em um grau de importância acima de outras atividades realizadas dentro da comunidade religiosa.

Mas, será que esse labor, muito nobre e respeitável, evidentemente, teria um significado tão grande se a fachada da instituição estivesse suja ou mal conservada, os banheiros descuidados e sem cadeiras limpas e suficientes para acomodar os seus visitantes? A presença espiritual seria tão intensa se a casa não possuir pelo menos um recurso mínimo para amparar alguém que lhe chegue necessitado de uma roupa nova e um pouco de alimento?

Sabemos, portanto, que todas as atividades têm a sua nobreza e funcionam em um conjunto interdependente, para que a obra produzida pela experiência religiosa possa ser exaltada e dar frutos de melhoria interior para as pessoas que dela compartilham.

No entanto, o que importa, de fato, é que a comunidade religiosa ofereça espaços para acomodar essas diversas formas que cada um possui de vivenciar o sagrado, sem com isso eleger formas "melhores" ou mais "corretas". Porque o sentido da religiosidade que se vivencia é construído ao nível subjetivo e não coletivo. Assim, nem sempre a maneira com que uma pessoa vivencia sua fé tem o mesmo significado e validade para outra. Querer colocar a todos num mesmo balaio é, naturalmente, fazer com que sempre fiquem pessoas de fora.

Como costumo dizer, nem sempre estar de corpo presente no trabalho espiritual significa que espiritualmente também se está.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Corpo e Percepção Mediúnica


Por: Gregorio Lucio

Dúvida comum: "Eu estava incorporado(a), mesmo?"

Fosse há algum tempo atrás, eu responderia: "Se está com dúvida, é porque não estava" (sim, já fui mais radical em minhas opiniões..rs).

Digo isso porque a experiência mediúnica é intimamente inconfundível. A experiência pode até ser questionável para um observador externo, no entanto, para aquele que a vivencia, o contato mediúnico é sempre marcante e, muitas das vezes, bem difícil de ser explicado em palavras em um discurso racionalizado.


Mas, o que desejo abordar, neste breve texto, é a questão de como podemos perceber a experiência mediúnica em nós (naturalmente, uma pessoa "de fora" não tem como avaliar as percepções subjetivas de outrem). Vejo que há algumas crenças envolvidas no processo da experiência mediúnica, as quais acabam por criar expectativas que mais atrapalham do que ajudam o indivíduo na sua vivência como médium, principalmente quando se está iniciando. 


Muitos esperam que experiências surpreendentes e fabulosas vão ocorrer tão logo estejam "atuados" pelas entidades espirituais.


Por exemplo, é muito comum acreditar-se que no contato mediúnico vai se perder a consciência, "apagar e dormir", somente despertando na hora do término do trabalho. Isso é uma crendice muito presente em centros e terreiros por aí. Embora até pode ser verdade que determinados médiuns do passado, em condições excepcionais, tenham vivenciado esse tipo de experiência, hoje essa condição não é predominante em 99,999%(pra não dizer 100%) dos médiuns trabalhadores (seja na umbanda, seja no kardecismo). Ou seja, deixemos de lado essa expectativa de acontecimentos fantásticos e mágicos.


A experiência mediúnica, ao contrário, deve ser a mais tranquila e serena possível. Diria até que o ideal, do ponto de vista da educação mediúnica bem orientada e saudável, é que o médium seja capaz de "entrar e sair" do estado mediúnico de maneira imperceptível para quem o observa. Nada de tremiliques, saltos, gritos, saculejos, fungadas, suspiros, esgares, arrotos, etc.


Cada vez mais, quanto mais vivencio a condição de médium e estudo esta faculdade, inclusive minhas experiências próprias, bem como de amigos que compartilham e dialogam com interesse sobre o tema, mais estou convencido de que a mediunidade é uma faculdade mental de nível superior, estando a disposição de qualquer pessoa, desde que bem educada e com um nível de consciência desperto para essa vivencia.


Quando atingimos o estado mediúnico, nos dias de trabalho, por meio do contato com os mentores e espíritos amigos, nossas percepções mentais se afloram, desencadeando uma condição psicológica de serenidade, de entrega e interiorização lúcidas, as quais, por fim, vão provocar uma reação orgânica que nós podemos perceber por meio de sensações corporais. Sim, pois nós nos esquecemos de que como médiuns, nós estamos encarnados, estamos imersos num corpo físico, e as nossas percepções vão sempre passar pelos filtros de nosso cérebro e, claro, de nosso corpo. Ficamos, a todo instante, a "buscar" sensações "fora" do nosso corpo. Ficamos tentando alcançar, perceber e entender coisas na dimensão espiritual, estando encarnados. E isso não é possível. Isso mais atrapalha do que ajuda na hora do trabalho mediúnico. Os espíritos, Guias e Mentores, esperam que nós estejamos ali para entregarmos o que podemos justamente nesta condição de seres encarnados num corpo físico.

Então, quando falo das sensações corporais que decorrem do estado mediúnico, refiro-me, por exemplo, àquela sensação de leveza que sentimos no peito, ao mesmo tempo, um "calorzinho bom e suave" emanando de nossas mãos e rosto. Aquele "formigamento" no alto da cabeça, descendo pelas costas. As pernas que parecem "flutuar". É disso que falo...coisas simples, mas que se conectadas a experiência psicológica e ao estado mental adequados, disciplinados e saudáveis, produzem esse sentido de estar-se, inconfundivelmente, em contato com a dimensão espiritual, comungando com os Espíritos Mentores.


Enfim, amigos, perceber-se em estado mediúnico, é reconhecer-se, espiritualmente, dentro de seu corpo.

quarta-feira, 5 de março de 2014

A Visão de um Adepto: A Questão dos Níveis de Consciência

Por: Gregorio Lucio
 
“Quem tem olhos de ver, veja! Quem tem ouvidos de ouvir, ouça!” (Jesus)
 
Antes de iniciar os sermões junto ao povo que o acompanhava, Jesus pronunciava essas frases “quem tem olhos de ver, veja! quem tem ouvidos de ouvir, ouça!”
 
Naturalmente, isso não se trata de um simples recurso de retórica ou uma aplicação de oratória para chamar a atenção de seu público. Jesus, muitas vezes referia-se dessa forma por saber, mais do que ninguém, a respeito de que os seres humanos vivenciam as percepções dos seus sentidos básicos, por meio de duas dimensões diferentes: a orgânica e a psicológica.
 
Nós tomamos contato com a realidade que nos cerca e com as nossas percepções interiores por meio dos nossos sentidos orgânicos (visão, audição, tato, gustação, olfato). Desde o ato mais simples e automático de  respirar, alimentar-se ou caminhar, até as ocorrências mais diferenciadas (intuições e percepções mediúnicas), tudo isso passa pelo registro de nossos órgãos sensoriais.
 
Ver e ouvir são funções orgânicas fundamentais para podermos tomar contato com o mundo exterior. Nossa vida de relação está diretamente ligada a essas funções básicas dos nossos sentidos. É por meio do “ver” e do “ouvir” que podemos nos comunicar com o outro, trocar informações, estabelecer relações as mais diversas, constituirmos uma família, vivermos em uma sociedade. Tudo isso com a finalidade de vivenciarmos as experiências de vida que nos promovam a evolução espiritual.
 
Ou seja, nossa vida e, consequentemente, as experiências que vão promover a nossa evolução e amadurecimento como pessoas, estão diretamente conectadas com a nossa relação com o outro.Nem mesmo Deus opera na vida humana, senão por ação de outro ser humano que se faz presente em nossa vida ou em momentos dela.  Jesus se faz homem, encarnando na Terra, assim como tantos outros benfeitores que a Humanidade já conheceu (Francisco de Assis, Irmã Dulce, Madre Tereza de Calcutá, Gandhi, Chico Xavier, Nelson Mandela, e outros), justamente para nos dar essa exata noção de que Deus se apresenta na vida humana por meio da imagem e exemplos de outro ser humano, o qual possa ser o portador de Sua mensagem e auxílio.
 
Contudo, nossas questões psicológicas interferem na maneira como “vemos” e “ouvimos” as pessoas e as coisas do mundo. E essa interligação entre o ver e o ouvir e a nossa realidade psicológica nos mostra o nível de consciência no qual cada um de nós estagiamos. Transitamos todos por níveis de consciência diferentes, o que caracteriza o nível de desenvolvimento e a evolução espiritual em que cada um de nós nos encontramos.
 
Nosso nível de consciência está diretamente relacionado com as várias vivências e questões particulares que temos em nosso dia-a-dia. E, como não somos plenamente desenvolvidos em todos os aspectos de nossas vidas e de nossa individualidade, nosso nível de consciência pode se mostrar mais avançado em algum ponto, enquanto noutro ele possa se mostrar deficiente. A síntese destes diferentes aspectos do nível de consciência é que nos dá o padrão evolutivo, espiritual, no qual nos encontramos individualmente e que, por lógica, nos leva a nos relacionarmos com pessoas de nível equivalentes  e buscar frequentar lugares que se afinizem com o nosso padrão “vibratório”.
 
Quem tem olhos de ver, veja! Quem tem ouvidos de ouvir, ouça”. Essas frases pronunciados por Jesus são chamamentos de ordem psicológica que dizem respeito a esse “despertar” interior que cada um de nós deve empreender para poder saltarmos os degraus na escala da evolução espiritual. Como disse, trata-se de um despertar de ordem interna e capaz de produzir os impulsos para a modificação efetiva em nós.
 
Mas, enquanto esse despertar em nós não acontece, é compreensível a postura de negação ou de defesa que muitos assumem, demarcadas por aquelas frases sempre repetidas e já bastante conhecidas: “Eu sou o que sou! Ninguém vai me mudar!”; “sou assim mesmo, quem quiser, que goste...quem não quiser...”; “eu nasci assim, cresci assim, vou morrer assim!” (síndrome de Gabriela); “isso que você fala é muito bonito, mas é literário, não é prático, não faz parte da vida das pessoas”; “eu preciso disso pra viver!”, “é meu destino ser assim”, “eu paro (ou mudo) quando EU quiser”; etc.
 
Somando a essa postura defensiva e de negação, a pessoa também adota uma visão projetada sobre aqueles outros que, naquele aspecto, estão em um outro nível de consciência (geralmente superior), as quais esta pessoa identifica como sendo os seus “censuradores”, ou os seus “juízes”, também dentro de uma postura de transferência e de defesa por ainda não conseguir perceber a sua real condição. Geralmente vai referir-se de maneira depreciativa ao outro como “a certinha”,  “o santo”, “a moralista”, “o intelectual”, “o arrogante”, “o mestre”, etc., conquanto seja de dever e obrigação daquele que se situa num nível de consciência superior, o papel de sempre alertar, orientar e incentivar a caminhada e a “subida” de seus companheiros, sejam familiares, amigos, irmãos religiosos, etc..
 
Com a intenção de exemplificar e sem querer fazer autobiografia, gostaria de citar um breve fato que aconteceu comigo a pouco tempo atrás.
 
Não é novidade para nenhum amigo leitor de que, apesar de ser umbandista, sou um grande admirador e estudioso da Doutrina Espírita (kardecista) e, por conta disso, principalmente quando da minha vivência que começou ainda adolescente no centro espírita, participo, há mais de 10 anos, junto com minha noiva, de um Grupo de Estudos Avançados de Doutrina Espírita em uma casa espírita na zona leste de São Paulo, no qual nós enfocamos o estudo do Espiritismo em conjunto com o conhecimento da psicologia, da psicanálise, da psicologia analítica (junguiana). Nesta atividade, também realizamos o acompanhamento espiritual e psicológico de um pequeno grupo de assistidos que são pacientes de determinadas doenças de cunho psiquiátrico (depressão, esquizofrenia, transtorno bipolar, etc.). Justamente pela característica do grupo, as nossas leituras e discussões são muito focadas nas questões que envolvem a temática da saúde, tanto orgânica quanto psicológica. Nessas discussões, procuramos levantar exemplos de ordem prática e pertinente a vida comum de todo nós e, por diversas vezes, éramos (minha noiva, eu, e outros) solicitados a falar sobre o tema usando como exemplo o caso do tabagismo e da pessoa fumante, que como disse nós mesmos levantávamos ou éramos solicitados a falar por pedido de outras pessoas, pelo fato do hábito de fumar ser, junto com o hábito de se alcoolizar, uma prática e um costume muito presente em nossa sociedade e nas famílias.
 
Como nunca fiz segredo para ninguém, sou filho de um alcoólatra e fumante inveterado (e inclusive adicto de outros tipos de narcodependência), com o qual passei muitos anos de minha vida, tendo, eu mesmo, me tornado fumante, logo aos meus 10/11 anos de idade, fumando bitucas que meu pai deixava em seu cinzeiro ou pegando-as no chão dos bares a que meu pai me levava e de onde tenho quase que todas as lembranças junto dele. Naturalmente, depois de me tornar espírita e assumir a proposta de vida transmitida por essa Doutrina, aos 18 anos, pude libertar-me desse hábito e promover modificações drásticas na minha vida. Por isso, me dou licença para falar destes temas (alcoolismo e tabagismo, em especial) sem nenhum constrangimento e com plena segurança daquilo que digo e afirmo, pois minha vida é um exemplo vivo e simples destas modificações e mudanças que devemos empreender para a nossa melhora, tendo eu aprendido tudo isso com as pessoas e os grandes exemplos que encontrei na Doutrina Espírita.
 
Pois bem, nestas discussões tratávamos sobre o tabagismo e sobre todos os malefícios relacionados a essa doença, assim como falávamos do perfil psicológico ligado à pessoa fumante, etc., sendo acompanhado pelas intervenções de outros companheiros e do dirigente do grupo, os quais também colocavam o seu parecer, confirmando e ampliando as nossas explanações.
 
Certo dia, a pouco tempo atrás, uma companheira do grupo pediu a palavra e disse que gostaria de fazer uma confissão. Ela então nos contou que fora fumante por mais de 35 anos, mesmo já sendo espírita há um período equivalente a esse, mas que até então ela não tivera se empenhado em deixar este hábito maléfico.  No entanto, após passar tantos meses participando do grupo e ouvindo todas as vezes que abordávamos a questão do tabagismo, ela passou a se incomodar com aquilo e resolveu-se por abandonar o hábito. Ela ainda disse, e nos surpreendeu com essa revelação (porque nem fazíamos idéia de que ela era fumante), de que muitas noites de sábado ela tinha ido embora de lá “com muita raiva” de mim e de outros amigos do grupo, por causa das colocações que eu fazia repetidamente abordando o tema do tabagismo, passando até a semana toda “vibrando contra” a minha pessoa, porque as coisas que eu falava mexiam demais com as suas questões interiores. Hoje, faz 05 anos que essa companheira abandonou o vício do cigarro, após ter sido fumante por 35 anos, modificando seus hábitos e está muito mais feliz e realizada com essa grande conquista interior.
 
Ver-se liberto das amarras que nós mesmos criamos para nós, em nossa inconsciência, “não tem preço”, como diz aquela propaganda.
 
Então, o que temos aí?
 
A modificação no nível de consciência da pessoa. Ela pôde, na relação com o outro (na vivência com o grupo espírita), identificar as suas necessidades de melhoria e envidar os esforços e as medidas necessárias para ir além do nível em que se encontrava, naquele aspecto (saúde do corpo) e promover um salto em sua qualidade de vida.
 
Isso é evoluir espiritualmente. Uma ação concreta e direta para a melhoria interior. Não é tornar-se iluminado e perfeito, mas é dar um passo nesta direção.
 
Para dar mais um exemplo didático, vamos dividir em 3, os aspectos da vida de um ser humano, como sejam: interior (saúde do corpo, necessidades particulares, etc.), privativo (vida em família, conjugal, e o cumprimento de seu papel dentro desta) relacional (vida social, profissional, etc.). Pois bem, existem indivíduos que possuem um nível de consciência mais desenvolvido em relação ao aspecto interior (cuidar de si-mesmo), denotando hábitos saudáveis em relação a sua saúde (orgânica e emocional), contudo, possuem deficiências no seu aspecto relacional (profissional, por exemplo), tendo dificuldade de se adaptar no ambiente de emprego, de se desenvolver profissionalmente, etc. Da mesma forma, existem pessoas que possuem um nível de consciência relacional desenvolvido (são muito bem relacionados, possuem sucesso profissional, etc.) mas possuem deficiência no relacionamento com sua família, ou no relacionamento conjugal; ou, no aspecto interior, não dando a devida atenção à sua saúde, não conseguindo libertar-se dos maus hábitos, sejam físicos ou psicológicos.
 
Poderíamos incluir também o nível de consciência em relação ao aspecto intelectual “versus” o emocional, etc. Mas, pensando justamente sobre esses aspectos, podemos identificar que todos nós estagiamos em um nível de consciência (em relação a nós mesmo e ao mundo que nos cerca)  que, de maneira geral, é mais ou menos parecido, variando em graus de acordo com as afinidades e as nossas aquisições psicológicas particulares.
 
Contudo, conforme os graus de diferenciação entre os níveis de consciência de cada pessoa vão variando, isso pode ocasionar determinadas dificuldades de compreensão e na relação entre as pessoas que estejam em pontos muito distantes nesta escala. Aí devem entrar os recursos psicológicos da compaixão, da compreensão amorosa e da tolerância fraternal, para que essas barreiras e resistências possam ser contornadas e superadas.
 
Não foi à toa que Jesus escolheu 12 apóstolos. Ele poderia ter escolhido, 20, 30, 50, 100 apóstolos. Mas ele escolheu 12, porque eram as pessoas que estavam em condições de conseguirem compreender a Sua mensagem, a assimilar os ensinamentos contidos em Suas palavras e exemplos e poder divulgá-los para o restante das pessoas. Tanto é assim que nos 3 anos em que Jesus realizou a sua jornada como Messias (dos 30 aos 33 anos), ele realizou 4 sermões e, para que a Sua mensagem,  o Seu Evangelho, pudesse ser ouvido pela multidão que o cercava, os apóstolos repetiam para os demais cada frase do sermão que Ele proferia.
 
Naturalmente, nós podemos nos desenvolver e “subir” nesta escala de níveis de consciência, em todos os aspectos que eu elenquei acima. Aliás, é um dever nosso fazer isso.
 
Porque, quando falamos em evolução espiritual, estamos justamente falando de tudo aquilo que podemos e devemos fazer para melhorarmos a nossa condição de vida, seja no seu aspecto interior (nossa saúde, nossa vida emocional, espiritual, etc.), seja em seu aspecto exterior (vida social, profissional, familiar, conjugal, etc.). Nós evoluímos por meio das realizações que empreendemos em nossa vida diária, mesmo naquelas coisas mais simples e/ou “materiais”.
 
Não há outro caminho. Falar em evoluir sem pensar em modificações em nossa qualidade de vida, em mudanças de comportamento e de hábitos, é simplesmente sonhar com algo que nunca vai acontecer e ficarmos presos a ilusões que, futuramente, nos irão conduzir a frustrações e angústias maiores.
 

Fraternalmente.